Criadores confirmam “Korrasami” na finale da série

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Depois de especulações entre os fãs sobre a última cena da série, Mike DiMartino, co-criador de A Lenda de Korra, se pronunciou em seu blog pessoal sobre o assunto. A seguir você confere na íntegra a tradução do artigo postado por ele, que pode ser conferido em inglês aqui.


Mike DiMartino

Agora que o momento final de Korra e Asami foi exibido, parece que o momento é adequado para expressar como me sinto sobre isso. Eu não queria dizer nada de imediato para que o público pudesse experimentar o finale para si próprios.

Os principais temas do universo Avatar sempre giravam em torno de igualdade, justiça, aceitação, tolerância, e equilibrar diferentes visões de mundo. De maneiras sutis e talvez não tão sutis, Avatar e A Lenda de Korra lidaram com temas difíceis como o genocídio, abuso infantil, morte de entes queridos, e estresse pós-traumático. Quando Joanna Robinson de Vanity Fair chamou o programa subversivo tomei isso como um elogio. Houve momentos, que mesmo eu fiquei surpreso em termos aprofundado temas realmente pesados em uma rede de TV infantil. Enquanto os episódios nunca foram projetados para “provar um ponto”, Bryan e eu sempre nos esforçamos para tratar os assuntos mais difíceis com o respeito e a gravidade que eles mereciam.

E ao longo dos anos temos ouvido de inúmeros fãs, em pessoa e on-line, como Avatar e Korra influenciaram suas vidas para o melhor e ajudou-os a superar um contratempo ou uma luta de vida. Estou sempre emocionado quando as pessoas compartilham suas histórias pessoais com a gente e eu sou grato que meu amor por contar histórias tem sido capaz de ajudar as pessoas de alguma maneira. Assim, enquanto Avatar e Korra fora sempre projetados para serem histórias divertidas e envolventes, este universo e seus personagens também falam com a humanidade mais profunda em todos nós, independentemente da idade, sexo, raça, religião, cultura, nacionalidade ou orientação sexual.

Nossa intenção com a última cena foi para torná-lo mais claro possível mostrando que sim, Korra e Asami têm sentimentos românticos uma pela outra. O momento em que elas entraram no portal espíritual simboliza sua evolução de amigas para um casal. Muitas agências de notícias, blogueiros e fãs se apegaram a isso e não viram ambiguidade. Para a maior parte, parece que a essência da cena foi entendida e um comentário adicional não era realmente necessário de Bryan ou de mim. Mas no caso de algumas pessoas ainda questionarem o que aconteceu na última cena, eu queria fazer uma declaração verbal clara para complementar a visual do show. Eu percebo que nem todo mundo vai ficar feliz com a maneira que o show terminou. Raramente um final da série de qualquer show de satisfaz seus fãs, assim eu fui agradavelmente surpreendido com os artigos positivos e posts que eu vi sobre o finale de Korra.

Eu já li algumas mensagens reconfortantes e incríveis sobre como esse momento significa muito para a comunidade LGBT. Mais uma vez, a incrível demonstração de apoio para o show me alegra muito. Como Tenzin diz: “A vida é uma grande viagem turbulenta.” E se, por Korra e Asami serem um casal, nós fomos capazes de ajudar a suavizar essa viagem mesmo que só um pouquinho, para algumas pessoas, eu estou orgulhoso de fazer a minha parte, por menor que seja. Obrigado pela leitura.


Bryan Konietzko –Korrasami é canon.

Você pode celebrar, adotar, aceitar, superar, fazer seja lá o que você sente que deve fazer, mas não nega-lo. Essa é a história oficial. Nós recebemos uma ótima resposta da imprensa no lançamento do episódio final da série no final da semana passada, e todas as publicações que eu li estavam certas: Korra e Asami se apaixonaram. Elas eram amigas? Eram, e ainda são, mas eles também desenvolveram sentimentos românticos uma pela outra.

Korrasami era “o final”, quer dizer, havíamos planejado isso desde o começo da série? Não, da mesma forma que nada além do arco espiritual de Korra havia sido planejado. Asami era uma espiã enganosa quando Mike e eu criamos ela pela primeira vez. Depois nós gostamos tanto dela que nós retrabalhamos a história para mantê-la inocente independente das atividades malignas de seu pai. Varrick e Zhu Li tampouco foram originalmente planejados para terminar como um casal, mas foi pra isso que nós levamos a história/a história nos levou. É assim que criação de roteiro funciona na maioria das vezes. Você dá vida a esses personagens e depois eles te dizem o que fazer.

Eu tenho reivindicado direitos como o primeiro shipper de Korrasami (eu ganhei!). Conforme escrevíamos o Livro 1, antes da audiência sequer colocar os olhos em Korra e Asami, eu já assoprava a ideia pela sala dos escritores. No começo nós não dávamos muita bola, não pore não pensávamos que relacionamentos do mesmo sexo eram uma piada, mas porque nós nunca pensamos que conseguiríamos retratar de forma impune em uma animação para um canal infantil nesses dias e nessa era, ou pelo menos em 2010.

Makorra era apenas “o final” para o Livro 1. Assim que nós entramos no Livro 2, sabíamos que teríamos que separá-los, e nos nunca havíamos planejado que eles voltassem a ficar juntos. Desculpem, amigos. Eu gosto do Majo também, e eu tenho certeza que ele ficará bem no deparamento de romance. Ele cresceu e aprendeu sobre sí mesmo através dos relacionamentos com a Asami e a Korra, e ele é uma pessoa melhor por isso, ele será um companheiro melhor para seja lá quem ficar com ele.

Uma vez que Mako e Korra superaram, nós focamos em desenvolver o relacionamento entre Korra e Asami. Originalmente, era principalmente para ser uma amizade forte. Francamente, nós queríamos deixar o conjunto de romances para as últimas duas temporadas. Pessoalmente, nesse ponto eu não queria que Korra tivesse que ficar com alguém no final da série. Nós obviamente fizemos isso em Avatar, mas mesmo isso pareceu forçado pra mim. Eu geralmente fico irritado quando isso acontece virtualmente em qualquer filme de ação “Lá vamos nós novamente…” Foi mais ou menos aí que eu me deparei com a citação de Hayao Miyazaki:

“Eu me tornei cético na regra não escrita de que só porque um menino e uma menina aparecem no mesmo material que um romance deve se suceder. Ao invés disso, eu quero retratar um relacionamento levemente diferente, um em que ambos mutualmente inspirem um ao outro a viver – se eu conseguir, então talvez eu estarei mais perto de retratar a verdadeira expressão do amor”

Eu concordo com ele inteiramente, especialmente quando a maioria dos exemplos do personagem feminino na mídia é quase um troféu a ser conquistado pelo personagem masculino principal pelos seus atos de coragem.

Contudo, acho que deve haver um complemento ao ponto de Miyazaki: O fato de haver dois personagens do mesmo sexo na mesma história não impede a possibilidade de haver um romance entre eles. Não, nem todo mundo é gay (LGBT), mas por outro lado, nem todo mundo é hetero. Quanto mais o relacionamento de Korra e Asami progredia, mais a ideia de um romance entre elas organicamente brotava para nós. No entanto, nós ainda operávamos em uma outra noção, em uma outra “regra não escrita,” em que não permitiriam que nós representássemos isso no nosso programa. Então nós propusemos isso durante a segunda metade da série, trabalhando na ideia de que a trajetória poderia ser direcionada para um romance.

Mas assim que chegamos perto de concluir o final, o pensamento me pegou: Como eu sei que não posso representar isso abertamente? Ninguém disse isso explicitamente, Era apenas outra suposição baseada em um paradigma que marginaliza pessoas não heterossexuais. Se nós quisermos superar esse paradigma, precisamos ter uma posição contra ele. Além disso, eu não queria olhar atrás em 20 anos e pensar, “Cara, nós podíamos ter lutado mais por isso.” Mike e eu discutimos e decidimos que era importante que o relacionamento pretendido não fosse ambíguo.

Nós contatamos o canal, embora eles apoiassem, havia um limite sobre o quão longe poderíamos ir com isso, conforme todos os artigos que eu li deduziram corretamente. Estava originalmente escrito no roteiro há mais de um ano atrás que Korra e Asami andariam de mãos dadas em direção ao portal espiritual. Nós fomos e voltamos nisso nos storyboards, mas depois, no processo de retomada, eu presenciei uma revisão em que elas se viravam uma para de frente para a outra, juntando as mãos de uma forma reverencial, em uma referência direta a pose nupcial de Varrick e Zhu Li há alguns minutos atrás. Nós pedimos pro Jeremy Zuckerman fazer uma música branda e romântica, e ele realizou a tarefa com uma composição sublime. Acho que os dois últimos minutos inteiros da sequencia de Korra e Asami ficaram bonitos, e, novamente, é um final do qual eu tenho muito orgulho. Eu adoro como o arco do relacionamento delas levou o seu tempo, através de delicadeza e cuidado. Se pareceu do nada para você, eu acho que uma segunda assistida das últimas duas temporadas vai mostrar que talvez você estava olhando apenas através de uma lente hetero.

Foi uma vitória duvidável para a representação gay? Eu acho que está bem perto disso, mas espero que seja de certa forma, um passo significante para frente. Foi animador o quão bem a mídia e a maioria dos fãs adotaram isso. Infelizmente e não surpreendentemente, também há uma grande parcela de gente que criticaram agressivamente com mordacidades homofóbicas e sem sentido. Eu experenciei que, de certo, esse tipo de pensamento é resultado da falta de exposição à pessoas cujas vidas e problemas são diferentes dos delas mesmas, e, devido a deficiência de empatia – sendo o último, o tema chave no Livro 4. (Apesar do que você ouviu por aí, pessoas bissexuais são reais!). Eu já tive diversas noções estúpidas durante a minha vida que foram introduzidas de varias maneiras, ou desenvolvidas através da minha própria ignorância e falha personalidade. Mesmo assim, ao conhecer gente de todos os tipos de vivências, ao ouvir as histórias das experiências delas, e ao empregar empatia imaginando como deve ser estar na mesma pele que eles, eu pude perder muitos pensamentos dolorosos. Eu ainda tinha um longo caminho a seguir, e muito o que aprender. Foi um caminho humilhante e trabalhoso, mas nada que se compare à experiência vivida por qualquer pessoa que tenha sido marginalizada. Tentar entender de onde as pessoas estão vindo é um esforço de vida que vale a pena

Há a reação inevitável, “Mike e Bryan apenasse submeteram aos fãs.” Bem, quais fãs? Existem muitos shippers de Makorra, então se nós tivéssemos voltado atrás na decisão e tivéssemos colocado esses personagens juntos de novo, isso significaria que nós estaríamos igualmente cedendo a esses fãs? Qualquer direção que nós seguíssemos resultaria inevitavelmente em uma facção contente e em outra devastada. Acredite, eu lembro de Kataang versus Zutara. Mas uma dessas direções vai ser a que parece certa para nós, e, Mike e eu sempre fizemos ambos Avatar e Korra primeiro e principalmente para nós. Nós temos sorte que tanta gente ao redor do mundo se conectam com essas séries também. Tahno tocando o trombone – isso sim é se submeter aos fãs.

Mas em particular, essa decisão não foi feita apenas por nós. Fizemos isso por todos os nossos amigos, familiares e colegas gays. Já passou da hora da nossa mídia (inclusive a mídia infantil) parar de tratar pessoas não-heterossexuais como não-existentes, ou como algo exclusivamente provocativo. Apenas lamento que tenha demorado tanto tempo para ter esse tipo de representação em uma de nossas histórias (estórias).

Eu vou resumir isso com algumas incríveis palavras que Mike e eu recebemos em uma mensagem de um ex membro da equipe de Korra. Ele é uma pessoa profundamente religiosa que dedica grande parte do seu tempo e energia não apenas à fé, mas também ajudando jovens. Ele e eu temos crenças extremamente diferentes, mas é comovente e motivador que nesse ponto estejamos alinhados em uma direção progressiva e positiva:

“Eu li resenhas o suficiente para ter uma noão de como isso afetou as pessoas. Um artigo muito bem escrito no Vanity Fair considerou isso subversivo (no bom sentido, é claro)… Eu diria que a melhor palavra seria “curador”. Eu acho que o seu final foi a cura para muitas pessoas que se sentiam por fora ou nas margens, ou que a forma de amor delas ou a jornada delas é menos real ou menos importante que a de outras pessoas… Que é, de alguma forma, menos válida. Eu conheço algumas pessoas nessa posição, que carrega uma vida dessas nos ombros, e em um episódio de televisão, vocês as aliviarame as validaram. Isso é cura no meu livro.”

Com amor,

Brian.

 


 

Agradecemos ao leitor Kevin Yanagui pela tradução do texto.

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Eduardo Guerra

22 anos, estudante universitário de Design Gráfico e Mídias de Entretenimento. Nascido em Campinas, SP, atualmente mora na cidade de Gold Coast, na Austrália. Adora livros, música e cinema. No site, atua como administrador geral, atualizando o portal sempre que possível e organizando as áreas específicas para a satisfação dos membros.

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