“Korra”, o desenho mais poderoso e subversível de 2014

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Um desenho infantil que levou ao ar o seu último episódio, exclusivamente online, pode ser não apenas o evento mais subversivo da televisão deste ano, como também pode ter poder para mudar a forma como são feitos programas infantis na TV para sempre. Sim, é verdade.

Ontem à noite, Nickelodeon levou a ar o final da animação A Lenda de Korra, que encerra uma jornada de nove anos que começou com Avatar: A Lenda de Aang. Mas, talvez, dizer que o episódio foi “ao ar” é a expressão errada.O motivo é que, em um movimento imprevisível, Nickelodeon retirou A Lenda de Korra da sua programação na televisão no começo do ano e transmitiu as últimas duas temporadas quase completamente exclusivamente online. É isso mesmo, algo chamado A Lenda de Korra, uma animação sobre aventura de adolescentes com habilidades sobrenaturais de manipular os elementos, inovaram tanto que foram retirados da televisão. E na última noite, durante a exibição do episódio final, os criadores Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino inovaram ainda mais. Bem mais. Programas para crianças talvez nunca mais voltem a ser os mesmos.

Eis como A Lenda de Korra, quebrando tabus raciais, sexuais e políticos, tornou-se o programa mais incrível e subversivo de 2014. (Spoilers ao final do texto)

A Influência de Avatar: Antes de tomarem grandes riscos com seus personagens adolescentes em A Lenda de Korra, Konietzko e DiMartino criaram uma animação clássica moderna em Avatar: a Lenda de Aang. (Não confundir com o filme de M. Night Shyamalan, O Último Mestre do Ar, o qual, todos concordam, fez um péssimo trabalho em capturar a mágica da série original.) A animação, que foi transmitida no período de 2005 a 2008 pela Nickelodeon, foi responsável por atingir enormes níveis de audiência para a emissora. O aspecto espiritual da animação (misturado com a aventura de seus jovens personagens e influências diretas da cultura oriental) o tornou tremendamente influente entre sua audiência infantil (e não infantil também). Não apenas isso, mas o sucesso da primeira série trouxe aos criadores, Konietzko e DiMartino, bastante respaldo para criar a segunda série, que estreou em 2010. Eles precisariam de todo esse respaldo.

Censura: É sempre mais tentador assistir a algo que não se deve assistir, mas nessa semana em particular, com a Sony tendo sido hackeada e censura cinematográfica, a idéia de assistir a algo, de alguma forma, proibido, traz uma sensação de algum tipo de movimento político. A Lenda de Korra nunca foi propriamente proibida, nem cancelada, talvez devido ao respaldo resultante da Lenda de Aang. Entretanto, a primeira temporada da animação foi ao ar em um cobiçado horário no sábado pela manhã. Após mostrar a morte de um personagem no final da primeira temporada, Korra foi considerada muito arriscada e adulta para o público de sábado de manhã e foi transferido para sexta a noite. Mas Korra continuou a levar ao ar material obscuro. Isso, somado com níveis de audiência menores do que esperada, vazamento de episódios e vários eventos de bastidores, resultaram na surpreendente mudança de Korra para exclusivamente online. Nas suas temporadas finais, Korra tornou-se muito perigosa e arriscada para Nick televisionar. Mas esse status clandestino tornou a série irresistível para certos espectadores. Especialmente os mais jovens.

Representação Racial: A animação não é ambientada no nosso mundo, mas, como mencionei anteriormente, tem uma inegável influência oriental. Por esse motivo o elenco predominantemente branco no filme de Shyamalan foi tão controverso. Entenda, o que quer que Korra seja, ela não é um floco de neve. E apesar do fato que de que programas de televisão para crianças estejam tornando-se cada vez mais diversificada, uma heroína corajosa e forte que não é Caucasiana ainda é um fator importante.

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Imagem Corporal e Mulheres fortes: Pode ser surpreendente saber que, apesar do respaldo que Konietzko e DiMartino tinham devido a série anterior (a qual tinha várias personagens femininas fortes, como Katara e Toph), Korra, que é uma heroína dura e impetuosa, não foi aceita tão facilmente. Lembre-se, isso pode ser pós Buffy a Caçadora de Vampiros, mas ainda é anterior a febre de Katniss. Konietzko disse a NPR:

Alguns executivos da Nickelodeon estavam temerosos em apoiar uma animação com um protagonista feminino. A sabedoria da Televisão convencional é de que garotas assistem programas sobre garotos, mas garotos não assitem programas sobre garotas. Durante os testes da série, entretanto, os garotos disseram não se importar que Korra fosse uma garota. Eles apenas disseram que ela era incrível… ela é musculosa e nós gostamos disso.

Mas Korra não é a única personagem feminina forte e diferenciada neste mundo. A animação é cheia delas e muitas são mães ou mesmo avós. Ora, muitas são até mesmo pequenas crianças. Esse é um programa que celebra mulheres de todas as idades. Mulheres são permitidas serem boas, mulheres são permitidas serem más, e o confronto final da série, na última noite, foi entre mulheres que, afinal, não são tão diferentes entre si. Dois lados da mesma moeda. Ao fim, Korra estava lutando em aceitar a compreender lados de si mesma que lhe fazem sentir-se desconfortável. (Mais sobre isso mais adiante.) Bem pesado para uma animação para crianças, não?

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Sem regras: Pelo que sei, Konietzko e DiMartino trabalham com algum tipo de regra. Mas se esse é o caso, não emergiu no decorrer da história, essa não é uma história do tipo “garotas mandam, garotos são bobos”. Os homens tiveram tanto tempo para se destacar quanto as mulheres. Mako, o clássico esteriótipo do herói protagonista (ele parece com um Clarck Kent mais magro), teve seu momento Grande Herói no final. E Bolin, meu personagem favorito, foi o coração pulsante da série.

Política e Religião: Esses não são assuntos fáceis de serem tratados, muito menos em um programa infanto-juvenil. Mas Korra nunca se acanhou de paradigmas modernos e, na verdade, aproximou-se por alegorias a respeito de armas de destruição em massa (vide a arma de vinhas!), fascismo (vide Kuvira!), transtorno de estresse pós-traumático (vide Korra!), Hitler (totalitarismo, Kuvira), George W. Bush (imperialismo, Kuvira), etc. etc. E isso é apenas a Política. A espiritualidade, uma parte fundamental do programa, é mais único. Como eu já disse, este não é um programa com uma ordem específica. Korra não nos força a nenhuma religião ou crédulo em específico. Mas sim tende a demonstrar vagas influências orientais sobre equilíbrio e consciência. Portanto, outra vez, algo incomum para o público alvo.

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Conclusão: O desfecho de Korra foi além de onde o programa havia atingido. O que segue trás alguns “spoilers” importantes para o fim da série, então se preferir, retire-se, mas, confie em mim, você não vai querer perder as revelações.

“É verdade o que dizem” um fã da série tweetou para mim essa manhã, “o herói sempre acaba com a mocinha.” A Lenda de Korra encerrou-se com uma bomba, um grande casamento entre Varrick e Zhu Li. Usando o bordão da série: eles fizeram a coisa.

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Mas a real “coisa” veio nos minutos final da série quando nossa heroína, Korra, e caminhou em direção ao por do sol (tecnicamente, um portal para o mundo espiritual) não com Mako ou nem mesmo com Príncipe Wu, mas sim com, Asami, sua amiga amada. Mas se você acha que essa revelação detona uma mera amizade, você só pode estar de brincadeira.

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O significado desta imagem de encerramento (fazendo alusão ao beijo entre Aang e Katara no fim de Avatar: A lenda de Aang) é mais importante devido a como Korra e Asami se conheceram. Na primeira temporada Korra, uma verdadeira super heroína, conheceu Asami, uma rica e poderosa executiva e inventora (pense no Bruce Wayne), quando ambas brigavam por um garoto. (Esse sendo Mako.) Basicamente, as mulheres estavam como exemplos vivos do Teste de Bechdel.

Mas ao desenrolar das temporadas, uma verdadeira amizade floresceu entre elas. E embora Konietzko e Di Martino serão provavelmente acusados de fazer isto devido ao apelo dos fãs com o casal Korra e Asami (apelidado de Korrasami), você não pode se fingir de desavisado. O laço entre ambas, que superou o anterior relacionamento com Mako, fora plantado à temporadas, por agora.

Os criadores transformaram a antiga, e pouco excitante, relação entre as duas em uma dinâmica e revigorante. Mas quão importante essa última cena é? Elas nem ao menos se beijaram, pelo amor de Deus! Bem, realmente, muito importante. Primeiro, como eu já mencionei, a geração atual cresceu com o mundo de Konietzko e Di Martino. Alguns que tem 18, hoje em dia, tinham 9, ou por volta disso, quando Avatar: A lenda de Aang estreou. A série de grande influência. E, certamente, há programas que são mais abrangentes e explícitos em relação a casais de mesmo sexo. Mas esses são programas destinados ao público adulto.

Quando se trata de entretenimento infanto-juvenil, cuja maneira ainda está se desenvolvendo. Até por que exceções como o fato de Dumbledore ser gay, ou Ren e Stimpy serem gays, são pouco abrangentes. Hora da Aventura certamente esforça-se e as amantes de Sailor Moon, que são trocadas para “primas” na versão americana, estão finalmente saindo do armário. Mas os programas infanto-juvenis tem um longo caminho antes de histórias GLS sejam consideradas um assunto mais explícito. E nenhum dos exemplos citados se comparam ao clímax de Korrasami no portal.

Então é assim que A lenda de Korra, uma série da Nickelodeon, muda a perspectiva da “televisão” em seu enceramento. Chame de divisor de águas, chame de dobra d’agua, chame como quiser. Fora uma grande série.


Agradecemos aos leitores Rafael de Mesquita e Felipe Corradini pela tradução desse artigo. Confira o original em ingles aqui.

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Eduardo Guerra

22 anos, estudante universitário de Design Gráfico e Mídias de Entretenimento. Nascido em Campinas, SP, atualmente mora na cidade de Gold Coast, na Austrália. Adora livros, música e cinema. No site, atua como administrador geral, atualizando o portal sempre que possível e organizando as áreas específicas para a satisfação dos membros.

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