A espiritualidade oriental em “Avatar: A Lenda de Aang”

Autor: David Ehrlich

– A água flui através desse riacho, assim como a energia flui através de seu corpo. Como você pode ver, há várias piscinas por onde a água passa antes de prosseguir. Essas piscinas são como nossos chakras.
– Então chakras são piscinas de energia espiralando em nossos corpos?
– Exato. Se nada mais estivesse em volta, esse riacho fluiria puro e claro. Porém, a vida é complicada, e coisas tendem a cair no riacho. E então o que acontece?
– O riacho não consegue fluir?
– Sim. Mas, se abrirmos as lagoas entre as piscinas…
– A energia flui!

imageO diálogo acima foi extraído do episódio “O Guru”, da 2ª temporada de “A Lenda de Aang”. Nesse episódio, Aang, o protagonista, viaja para se encontrar com Pathik, um guru que lhe avisa que, para Aang ter total controle sobre seus poderes, ele precisa antes aprender a alcançar o auto-equilíbrio. O modo de se alcançar isso é Aang abrindo seus chakras.

Embora o mundo de “Avatar” seja fictício e recheado de elementos de fantasia, os chakras têm sua origem no mundo real: Seu conceito originou-se na Índia, sendo parte importante da filosofia e espiritualidade iogue. Na série, Pathik explica que há sete chakras, cada um lidando com um propósito diferente: Sobrevivência, prazer, determinação, amor, verdade, compreensão e a pura energia cósmica. Cada um desses chakras está localizado em uma parte do corpo específica, e é bloqueado por uma emoção diferente, que Aang precisa aprender a desbloquear para deixar sua energia fluir pelo seu corpo.

Os mesmos conceitos podem ser encontrados, de uma forma mais complexa, no estudo dos chakras iogues.

Ao criarem “Avatar: A Lenda de Aang”, Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko tiveram forte inspiração na cultura oriental: Os nomes, os vestuários, a arquitetura, a escrita, os estilos de luta, a política, até mesmo a animação, tudo foi concebido para se assemelhar a aspectos culturais asiáticos, principalmente chineses, japoneses e indianos, entre outros. Entre esses aspectos, um que recebe grande destaque ao longo da narrativa da série é a espiritualidade. Seja inspirada no budismo, no hinduísmo ou até mesmo em crenças xamânicas, a espiritualidade oriental está presente em todas as três temporadas da série, em todas as quatro nações apresentadas, se estendendo até para a segunda série criada por DiMartino e Konietzko, “Avatar: A Lenda de Korra”, embora com destaque reduzido, dando mais ênfase para a política e filosofia.

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Cada nação de Avatar possui suas próprias crenças espirituais, com suas próprias inspirações: Os Nômades do Ar pregam a iluminação pelo desapego às coisas mundanas, de forma semelhante ao budismo tibetano; as Tribos da Água, por serem fortemente inspiradas nas populações inuítes (esquimós), praticam rituais e costumes típicos dessas populações, como a representação de totens e a observação de auroras boreais/austrais como sendo algo sagrado, com a exceção a esses costumes sendo a Tribo do Pântano Nebuloso, que crê que todos os organismos vivos estão conectados uns com os outros em um só, da mesma forma como todas as árvores do pântano onde vivem fazem parte na verdade de uma única, grande árvore (que, aliás, é uma árvore Banyan, ou Figueira de Bengala, à qual religiões como o hinduísmo e budismo fazem várias referências, sendo considerada sagrada na Índia); o Reino da Terra, sendo a maior das quatro nações, possui uma grande diversidade de crenças espirituais, com várias inspirações, provindas principalmente do budismo, taoísmo e de crenças folclóricas chinesas; enquanto que a Nação do Fogo, assim como o Japão, possui uma espiritualidade bastante mista, com um clero forte e influente e ao mesmo tempo uma população que idolatra espíritos locais, como é o caso da Dama Pintada, além de possuir uma forte idolatria à figura do Senhor do Fogo, da mesma forma como o Imperador do Japão foi considerado por muito tempo como tendo direito divino de governar; além disso, grupos minoritários da Nação do Fogo, como os Guerreiros do Sol, idolatram o sol de forma semelhante às civilizações pré-colombianas, como os astecas, incas e maias.

Há, porém, conceitos da espiritualidade oriental que podem ser encontrados nas culturas de todas as nações, ou pelo menos não são parte específica de uma única delas. Além dos chakras, um desses conceitos amplamente difundidos é o de chi. Embora na tradição chinesa o chi (ou qi, dependendo da tradução) seja tratado como um princípio ativo presente em todos os seres vivos, sendo parte fundamental da medicina tradicional chinesa e de muitas artes marciais, seu sentido é bastante amplo e abstrato, tendo também conotações metafísicas: para a espiritualidade chinesa, o chi é a energia que flui através dos corpos, permeando e conectando tudo e todos. Assim, sua energia pode ser utilizada por personagens da série para encontrarem uns ao outros, como quando Aang estende seu chi para as vinhas da árvore Banyan no episódio “O Pântano”, sendo assim capaz de descobrir a localização de Appa. Em “A Lenda de Korra”, Korra utiliza a mesma técnica para encontrar Jinora, Ikki e Meelo no episódio “O Chamado”, conectando-se assim de volta com as pessoas que a amam após anos de isolamento.

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Em “Avatar”, porém, o chi é utilizado principalmente na dobra e em seu bloqueio. Mesmo assim, seu sentido espiritual também está presente. A própria habilidade de dobra é tratada como sendo a habilidade de certas pessoas em manipular seu chi ao ponto em que essa energia pode se estender para além do corpo. No episódio “Trabalho Amargo”, Iroh explica que a energia do chi pode ser sentida fluindo através do corpo, e seu fluxo pode ser redirecionado. Várias dobras e suas especializações baseiam-se em controlar e/ou concentrar o fluxo de chi em um ponto ou movimento. Na combustão, por exemplo, dobradores de fogo concentram seu chi na testa, gerando explosões. Na espiritualidade iogue, a testa é onde está localizado o sexto chakra (ajña, em sânscrito), considerado o chakra da luz e conhecido na tradição hindu como o “terceiro olho”. Ambos os dobradores de fogo capazes de gerar combustão apresentados em “Avatar”, Homem-Combustão e P’Li, possuem um terceiro olho tatuado na testa.

Percebe-se aí certo sincretismo que a série faz entre as várias tradições espirituais orientais, criando assim um conceito de espiritualidade próprio da série, que esta enfatiza em diversos momentos ao longo de sua duração. Em “O Pântano”, Huu fala que o mundo inteiro é um grande organismo vivo, e que todos os seres vivos vivem juntos e têm as mesmas origens, mesmo que algumas pessoas não ajam assim. Em “O Guru”, Pathik diz que a maior ilusão do mundo é a da separação, e que todos os povos do mundo são um só, mas que estes vivem como se estivessem divididos. Ambos os personagens são baseados em tradições espirituais diferentes: As crenças de Huu são similares a doutrinas budistas tibetanas e chinesas (ele chega a dizer que alcançou a iluminação sentando sob a árvore Banyan, da mesma forma como Siddhartha Gautama, o fundador do budismo, alcançou a iluminação sentando sob uma árvore da mesma espécie), além de possuírem certa semelhança com a moderna Hipótese de Gaia, que crê que todos os organismos da Terra interagem com os objetos inorgânicos ao seu redor, formando assim um complexo sistema capaz de se auto regular e que ajuda a manter as condições favoráveis à vida no planeta; Pathik, por outro lado, representa a tradição espiritual hinduísta, com sua aparência e vestuário sendo semelhantes aos de certos sacerdotes hindus. Ao final, porém, ambos acabam passando os mesmos ensinamentos a Aang, que este aprende ao longo da série a utilizar na prática.

Tui e La

Tui e La

Tal sincretismo estende-se também para outros conceitos espirituais orientais apresentados na série. Um exemplo principal é o conceito de Yin e Yang. No taoísmo chinês, Yin e Yang são forças naturais ao mesmo tempo opostas e complementares, dependentes uma da outra, que interagem entre si e assim formam uma à outra. Em “Avatar”, o símbolo do Yin e Yang (ou Taijitu, em chinês) é apresentado visualmente em diversas ocasiões, como os espíritos Tui e La em “A Lenda de Aang” ou Raava e Vaatu em “A Lenda de Korra”. Seu conceito, porém, também é trazido pelos personagens da série na forma de diálogos, sincretizado com outros conceitos da filosofia e espiritualidade oriental, e os personagens chegam a utiliza-lo na prática. Em “Trabalho Amargo”, ao ensinar a Zuko sobre a habilidade de dobrar raios, Iroh explica que a energia ao redor de todos (chi) é tanto Yin quanto Yang, positiva e negativa, e que a habilidade de dobrar raios é atingida ao se separar essas energias através de dobra de fogo, criando um desequilíbrio. Como o chi procura sempre manter seu equilíbrio, no instante seguinte as energias Yin e Yang unem-se de volta, e a colisão resultante gera raios que certos dobradores de fogo são capazes de dobrar.

Por fim, mas não menos importante, temos o conceito espiritual indiano que dá nome à série: O de Avatar. Na religião hinduísta, o Avatar é a encarnação terrena de um deus ou deusa, sendo a forma como este ou esta se manifesta no mundo material. Um dos principais deuses hindus a se manifestar na forma de Avatar é Vishnu. Na religião hinduísta, Vishnu é um dos membros da trindade de deuses (trimurti, em sânscrito) formada por ele, Brahma e Shiva. Enquanto Brahma e Shiva são responsáveis respectivamente por criar e destruir ou transformar tudo dentro do Cosmos, Vishnu é o deus responsável por manter e preservar. Sendo assim, seus Avatares possuem o propósito de trazer justiça e ordem ao Cosmos e à sociedade durante períodos de desequilíbrio, protegendo o bem e destruindo o mal de era em era.

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Os Avatares da série se mantêm vagamente fieis a esse conceito de Avatares de Vishnu, sendo a encarnação humana do “Espírito Avatar”, que surge de geração em geração com o dever de usar seu poder de dobrar todos os quatro elementos para manter o equilíbrio entre as quatro nações do mundo e entre humanos e espíritos.

Mesmo esse conceito, porém, possui suas doses de sincretismo: Na série, é estabelecido que, pelo menos entre os Nômades do Ar, o Avatar é identificado numa idade precoce, em um teste no qual crianças Nômades do Ar são colocadas diante de milhares de brinquedos, quatro dos quais foram usados por encarnações anteriores do Avatar; se a criança escolhe esses quatro brinquedos, ela é identificada como a nova encarnação do Avatar. No budismo tibetano, a reencarnação do Dalai Lama é identificada através de um método semelhante, no qual vários artefatos são colocados diante do menino que se acredita ser a reencarnação; se ele escolher justamente os artefatos que pertenciam ao Dalai Lama anterior, isso é considerado um sinal de que ele é sua reencarnação.

Como se não bastasse esse sincretismo, em “A Lenda de Korra” é revelado ainda que o tal “Espírito Avatar” é na verdade Raava, o espírito da luz e da paz, o Yang do Yin e Yang formado por ela e Vaatu, o espírito das trevas e do caos.

Como se percebe, a espiritualidade oriental está presente nos mais diversos níveis de “Avatar: A Lenda de Aang”. Ao mesmo tempo que a série apresenta tais conceitos espirituais de uma forma que o público infanto-juvenil para o qual ela é voltada consiga compreende-los, utiliza-os, mistura-os e sincretiza-os, de forma a assim criar uma espiritualidade única e ao mesmo tempo ampla, desligada de qualquer religião real mas e ao mesmo tempo capaz de transmitir os valores de equilíbrio e conexão tão importantes para a série.

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