Toph e os dominadores de ondas sonoras

Por: Victória Coura

Toph: Mesmo nascendo cega eu nunca tive problemas para enxergar. Eu vejo pela dominação de terra, é como ver pelos pés. Eu sinto as vibrações da terra e posso ver onde está tudo. Você, aquela árvore, até mesmo aquelas formigas.

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Não é fácil criar um personagem secundário que seja tão ou mais marcante que o personagem principal. Com isso em mente, Bryan Konietzko e Michael DiMartino fizeram com que Toph não só se sobressaísse, como também o fizesse em relação a quase todos os personagens do desenho.

Toph é o que todos gostaríamos, mesmo que secretamente, ser. Inteligente, autossuficiente, forte, irônica e e muito perceptiva para seus 12 anos de idade. Tudo isso e… Cega. Para ela, o que seria um fator restritivo tranformou-a na melhor dominadora de terra do mundo.

Ao se perder na caverna com as toupeiras-texugo, Toph foi capaz de desenvolver hiper-sensibilidade em seu sistema mecanorreceptor – receptores sensoriais que respondem a pressão ou outro estímulo mecânico, como os sensores táteis e auditivos. Desta forma, podia formar uma imagem mental de seus arredores utilizando-se das vibrações da terra, percebidas através de sua dominação. Até mesmo as menores movimentações, de formigas, como ela mesma exemplificou, não estavam imunes à sua percepção.

Infelizmente, a dobra de terra como extensão dos sentidos de um ser humano com deficiência não é viável em nosso mundo. Entretanto, pessoas formidáveis foram capazes de superar as barreiras da cegueira assim como Toph utilizando-se de seus outros sentidos como forma de extensão da visão. Essas pessoas são hoje chamadas de ecolocalizadores.

Assim como Toph, boa parte dessas pessoas nasceu cega (ou perdeu a visão precocemente na infância), e mesmo assim têm a capacidade de propriorecepção, também conhecida como cinestesia, muito evoluída. Essa habilidade envolve, de acordo com de acordo com MartimbiancoI; PolachiniII; Chamlian e Masiero, reconhecer a localização espacial do corpo, sua posição e orientação, a força exercida pelos músculos e a posição de cada parte do corpo em relação às demais, sem utilizar a visão a partir da informação vinda dos mecanorreceptores. É possível, então, realização de várias atividades, além de mante-se em eixo de equilíbrio, mesmo sem o auxílio de uma bengala.

O trabalho conjunto das fibras musculares, informações táteis e do sistema vestibular, ampliam a cinestesia de um indivíduo cego de tal modo, que o extraordinário da dobra de terra do mundo de Avatar cria vida no mundo real na forma de dobra de ondas sonoras.

Daniel Kish

Daniel Kish

Daniel Kish (nascido em 1966), fundador da World Acess For the Blind (Acessibilidade Mundial para os Cegos) é um dos seres humanos capazes de dominar o som. Teve seus olhos removidos com pouco mais de um ano de idade, devido a um câncer na retina e, desde então aprendeu a fazer “cliques” com a língua e desenvolveu uma habilidade, que agora ensina a outras pessoas cegas, chamada “Mobilidade Perceptiva”. Com seus cliques pode até diferenciar uma cerca de metal de uma cerca de madeira, através dos ecos que retornam. Graças a Kish e sua fundação, mais de 7.000 pessoas em mais de 30 países no mundo, são treinadas na arte de dobra de ondas sonoras, dando-lhes mais segurança e independência quanto à percepção do mundo à sua volta.

Lawrence Scadden

Lawrence Scadden

Lawrence Scadden (nascido em 1939) também perdeu a visão na infância, porém, graças à sua capacidade de ecolocalização, ainda andava de bicicleta de maneira primorosa no trânsito. Detalhe: seus pais só o permitiam pois, devido à independência que demonstrava, pensavam que Lawrence ainda enxergava.

Ainda, foi de grande ajuda para os pesquisadores do Laboratório de Neurotecnologia Auditiva da Universidade de Maryland, que estudavam o comportamento dos morcegos. Perceberam, com sua ajuda, que morcegos não usam tanto essa técnica em ambientes familiares, a não ser que estivesse ciente de obstáculos neste mesmo lugar. A eficiência de percepção espacial de seres vivos cegos capazes de produzir ecolocalização é tão boa ou até melhor do que a daqueles que enxergam.

Ben Underwood

Ben Underwood

Por fim, Ben Underwood (1992 – 2009), o mais eficiente ecolocalizador do século, foi capaz de realizar feitos realmente surpreendentes. Aos três anos de idade teve seus olhos removidos devido a um câncer na retina. Desde então, sua mãe o escutava fazer cliques e mais cliques com a língua, até aperfeiçoar-se nesta arte aos cinco anos de idade.

Além de ser capaz de ir à escola tradicional, Ben era capaz de andar de bicicleta e patins através do uso da ecolocalização. Ele também conseguia jogar basquete e pasme: acertar a cesta na maior parte das vezes.

Infelizmente, Ben morreu aos 16 anos, vítima do mesmo câncer que levou sua visão. Entretanto, por toda sua vida, pôde ser um adolescente independente e autossuficiente, assim como Toph: dominação das ondas sonoras reverteram o que seria a vida na escuridão e dependência para um quadro de otimismo, mesmo com todas as adversidades. No vídeo abaixo, pode-se ver um pouco de suas habilidades extraordinárias

 

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