Representação da guerra em Avatar

Por David Ehrlich

Em 18 de maio de 2009, quase um ano após a transmissão de seu último episódio, “Avatar: A Lenda de Aang” foi condecorado com o Prêmio Peabody. Uma das principais premiações da mídia americana, o Peabody reconhece realizações distintas e serviço público meritório por parte de estações de rádio, canais de TV, mídias online, entre outros, refletindo excelência e qualidade. No site da premiação, lê-se que a série recebeu o prêmio sendo “distinta por personagens multi-dimensionais, relacionamentos pessoais incomumente complicados para uma série de desenho animado, e um respeito saudável pelas consequências da guerra”.

guerra dos cem anosDo começo ao fim, a guerra foi um dos pontos mais importantes de “Avatar: A Lenda de Aang”, a série toda girando em torno de Aang tentando pôr um fim à Guerra dos Cem Anos, conflito que surgiu dos planos da Nação do Fogo de dominar as outras nações do mundo. A guerra por si só, porém, não é um tema tão incomum entre séries animadas infantis: Séries como “Transformers”, “Comandos em Ação” e “Thundercats” também tinham a guerra como ponto central de seus enredos. O que há de tão diferente então na representação desta em “A Lenda de Aang”, que torna essa série merecedora de um prêmio tão importante?

No primeiro episódio, “O Garoto no Iceberg”, descobrimos que cem anos antes a Nação do Fogo começou a atacar o resto do mundo, e que, com o Avatar desaparecido, está agora perto da vitória, forçando os homens da Tribo da Água do Sul a deixar a tribo para ajudar o Reino da Terra a lutar contra as forças invasoras; porém, pouco mais que isso é revelado: Não se sabe ao certo os motivos que levaram a Nação do Fogo a declarar guerra ao resto do mundo, ou a extensão das consequências dessa guerra, fora ter deixado a Tribo da Água do Sul vulnerável a ataques, sendo habitada apenas por mulheres e crianças, nenhuma delas, fora Katara, sendo capaz de dobrar água.

gyatsoÉ no terceiro episódio, “O Templo de Ar do Sul”, que o público percebe pela primeira vez a extensão e a barbárie dessa guerra. No começo, Katara cita que sua mãe foi morta em um ataque da Nação do Fogo. Mas ao longo do episódio descobre-se que eles não invadiram só a Tribo da Água do Sul, mas também os Templos do Ar, habitados então por monges que viviam pacificamente. Como se isso não bastasse, sabendo que a atual encarnação do Avatar seria um dobrador de ar, mataram todos os Nômades do Ar, sem, porém, encontrar o Avatar, Aang.

Embora, como visto antes, várias séries animadas infantis já haviam abordado a guerra, poucas abordaram o genocídio. Sendo o extermínio de uma população e de sua cultura por outra, é considerado em geral um tema pesado demais para ser abordado em um programa voltado para crianças, pois implica um conceito difícil de lhes ser explicado: O de casualidades de inocentes. Em geral, programas infantis que abordam a guerra a retratam apenas como um confronto entre heróis e vilões; quando civis são envolvidos, a maioria das vezes as consequências da guerra para eles envolvem sua servidão ou a escravização por parte dos vilões, seguida pela libertação por parte dos heróis. No genocídio, isso não acontece: Não há uma possibilidade dos civis serem libertados ou resgatados, pois estão mortos. Não há como voltar atrás, ou consertar tal massacre. Devido a isso, em vários momentos da série Aang lida com o sentimento de que falhou como Avatar, acreditando que por abandonar seu povo que este foi extinto.

hakodaEis o primeiro, e um dos principais, motivos pela representação da guerra em “A Lenda de Aang” ser diferente das anteriores: A constante presença da noção de que pessoas podem e vão morrer nela. Em diversos episódios personagens demonstram medo da morte, seja a própria ou a de pessoas queridas.

Até mesmo o medo contrário, o de matar, é apresentado: Em “O Estado Avatar”, Aang mostra medo de sua capacidade destrutiva após dizimar boa parte da frota da Nação do Fogo ao fundir-se no Estado Avatar com o espírito La; e, nos últimos episódios da série, Aang apresenta angústia diante da ideia de que terá que matar o Senhor do Fogo Ozai, o que vai contra os princípios pacifistas com os quais cresceu, mesmo que todos a quem pede conselhos lhe digam que é isso que ele terá que fazer.

A morte, porém, não é a única consequência da guerra apresentada em “A Lenda de Aang”. Para garantir sua supremacia, a Nação do Fogo promove campanhas militares para eliminar a principal forma de resistência das outras nações: Seus dobradores.

aprisionadosEm “Aprisionados”, vê-se que em certas colônias da Nação do Fogo no Reino da Terra, como a vila de Haru, o ato de dobrar terra é proibido; quem for flagrado dobrando-a é aprisionado e enviado para um navio-prisão, sendo ali forçado a construir e reparar navios de guerra para a Nação do Fogo. Considerando que, como a série mostra, a dobra é um aspecto importante da cultura de cada nação, sua erradicação pode ser considerada uma forma de genocídio, pois este se caracteriza também pela extinção de traços culturais de um povo.

A eliminação de outras dobras mostra-se uma grande preocupação da Nação do Fogo. Na invasão à Tribo da Água do Norte, o principal ponto da estratégia de Zhao consiste em matar o espírito Tui, o que impediria os dobradores de água de usarem seus poderes. Na terceira temporada, porém, vê-se a extensão da crueldade utilizada pela Nação do Fogo para eliminar tal tipo de resistência, especialmente nos episódios “A Manipuladora de Fantoches” e “Os Atacantes do Sul”. No primeiro, descobre-se que, antes do retorno de Aang, a Nação do Fogo invadiu a Tribo da Água do Sul para capturar todos os dobradores de água, que eram colocados em prisões planejadas para evitar qualquer dobra de água: O ar era canalizado para chegar sem umidade, e os prisioneiros acorrentados antes de beberem água; caso demonstrassem qualquer sinal de revolta, eram cruelmente torturados.

Em “Os Atacantes do Sul”, vê-se que, após esses ataques iniciais, a Nação do Fogo criou uma força especial para matar quaisquer dobradores de água que ainda estivessem vivos, erradicando assim qualquer esperança de resistência da Tribo da Água do Sul. Foi assim que a mãe de Katara foi morta, dizendo ser a última dobradora de água da tribo para proteger sua filha.

Ambos os episódios também apresentam a dobra de sangue, uma técnica criada por Hama, a única dobradora de água da Tribo da Água do Sul a escapar (e talvez sobreviver) ao aprisionamento. Após a fuga, Hama enlouqueceu, e, vivendo na Nação do Fogo, passou a usar a dobra de sangue para sequestrar e aprisionar os habitantes locais. Tal comportamento mostra dois outros aspectos do retrato da guerra em “A Lenda de Aang”: As consequências que vão além da guerra e a presença de “culpados” e “inocentes” em ambos os lados.

Quanto ao primeiro aspecto. Desde a primeira temporada, a série mostra uma grande preocupação em mostrar que as consequências de uma guerra se prolongam para além desta, causando destruição aos locais e pessoas que a sofreram mesmo tempos depois. Em “O Mundo Espiritual”, Aang, Katara e Sokka ajudam uma vila que está sendo atacada por um espírito; seus habitantes não sabem o porquê. Ao final, é revelado que o espírito na verdade vivia em uma floresta próxima, incendiada por dobradores de fogo e, enfurecido, começou a atacar quaisquer humanos que visse. Na vida real, a destruição causada por guerras pode gerar desastres ecológicos duradouros, capazes de prejudicar gravemente a economia e a qualidade de vida de um ou mais países, além de afetar o comportamento e os meios de sobrevivência de sua fauna, que pode até passar a atacar humanos ou invadir casas e meios urbanos.

Outra consequência da guerra que vai além desta, comum na vida real mas pouco apresentada em programas infantis, são os refugiados. Vários episódios, como “A Grande Divisão” e “O Templo do Ar do Norte”, têm como personagens secundários refugiados que tiveram seus lares destruídos pela guerra, sendo obrigados a fugir e ir para outros lugares, resultando em crises. A maioria procurou refúgio na capital do Reino da Terra, Ba Sing Se, mas, na segunda temporada, é revelado que, além de passarem por um complicado processo burocrático para entrarem na cidade, chegando lá são forçados a viver precariamente no Anel Menor, pois é proibida na cidade qualquer menção à guerra para evitar pânico. Aqueles, como Jato, que insistem em menciona-la são apreendidos pelos Dai Li e passam por uma lavagem cerebral.

jatoO personagem Jato (e o primeiro episódio em que ele aparece) é outro exemplo tanto desse aspecto quanto da presença de “culpados e “vilões” em ambos os lados na guerra. Após perder sua família para dobradores de fogo, Jato criou um ódio mortal pela Nação do Fogo, disposto a matar quaisquer membros dela, mesmo que não estejam envolvidos na guerra, a ponto de tentar inundar uma cidade colonizada por estes.

Este é também o primeiro episódio em que se vê um lado menos militarizado da Nação do Fogo, mostrando que ela é também composta por civis e pessoas que não têm envolvimento na guerra. Isso se mostra mais evidente na terceira temporada, em que Aang, Katara e Sokka se infiltram na Nação do Fogo e entram em contato com vários civis, alguns dos quais até sofrem com a guerra, como a vila em “A Dama da Água”, devastada pela poluição após a instalação de uma fábrica militar. É um avanço em relação a programas infantis anteriores que retratam a guerra, pois nestes as facções ou civilizações vilãs são retratadas como inteiramente militarizadas ou voltadas para a guerra, aqueles que não participam dela ou que se opõem a ela sendo exceções. Muitos deles se baseiam no modelo do Império de Star Wars, cuja força principal, os Stormtroopers, eram pouco aprofundados: Não se vê suas famílias, amigos ou pessoas com as quais eles se importam. Em “A Lenda de Aang”, a situação é mais semelhante à realidade: Mesmo na Nação do Fogo, a antagonista, há civis, a maioria ora vivendo suas vidas independentemente da guerra ora sendo arrastados por ela, contra a vontade ou muitas vezes por não conhecerem outra opção. E mesmo dentro do exército é trazida a noção de que seus soldados possuem famílias, amigos, enfim, que fazem parte de um círculo social maior, que sentirá falta deles caso morram.

Mas qual é o objetivo da Nação do Fogo? Nas primeiras duas temporadas, fica claro que ela tenta conquistar as outras nações em busca de dominação mundial, porém o que a levou a isso, e o que a fez continuar essa guerra por cem anos, permanece um mistério, com pequenas indicações de que teriam a ver com um sentimento de superioridade por parte dos dobradores de fogo: Em “Avatar Roku”, é revelado que o início da guerra coincidiu com a vinda do Cometa de Sozin, que tornou os dobradores de fogo muito mais poderosos. E, em “O Espírito Azul”, Zhao faz referência ao fogo como “o elemento superior”. Essa mesma fala mostra que nem todos na Nação do Fogo estão interessados em colonizar inteiramente o Reino da Terra, seu maior adversário, citando planos de, ao conquistar Ba Sing Se, “queimar a cidade até o chão”.

sozinÉ apenas na terceira temporada que é revelado o que levou a Nação do Fogo a declarar guerra ao resto do mundo: Em “O Avatar e o Senhor do Fogo”, Aang e Zuko descobrem separadamente que mais de cem anos antes, Sozin, o então Senhor do Fogo, desde os primeiros anos de seu reinado planejava expandir sua nação em um bem-sucedido império mundial, com a intenção de “dividir com o resto do mundo” o auge de prosperidade que sua nação estava então vivendo. Já vários anos antes da chegada do Cometa de Sozin, ele já invadira territórios do Reino da Terra e estabelecera colônias.

escola na‡Æo do fogoTal discurso de dividir a prosperidade, como é revelado na terceira temporada, faz parte da educação básica na Nação do Fogo: Em “A Faixa de Cabeça”, Aang participa de um dia de aulas em uma escola da Nação do Fogo, onde as crianças fazem um juramento de continuar com sua “Marcha da Civilização”, sugerindo que elas aprendem que as outras nações do mundo são incivilizadas, incultas, inferiores, até bárbaras; a professora chega a dizer que a Nação do Fogo “batalhou o exército da Nação do Ar”, ao invés de emboscar os Nômades do Ar, uma população pacífica e sem exército formal, e massacrá-los, como de fato aconteceu. Essa educação manipulatória é reafirmada em “O Eclipse”, em que Zuo diz a seu pai que as crianças da Nação do Fogo crescem sendo ensinadas que sua nação é a maior civilização da história, e que a guerra é sua forma de dividir sua grandeza com o resto do mundo, embora ele deixa sugerido que a lógica por trás de tal raciocínio não é ensinada; enquanto que, na verdade, os outros povos do mundo sentem-se aterrorizados pela Nação do Fogo, odiando-a e não vendo qualquer grandeza nela; ao invés da era de prosperidade que Sozin queria, o que a Nação do Fogo de fato gerou foi uma era de medo.

O que é possível, então, aprender sobre as consequências da guerra em “A Lenda de Aang”, que o Prêmio Peabody sentiu a necessidade de elogiar?

É possível aprender que ela afeta não só aqueles que estão diretamente envolvidos nela, como soldados e oficiais, mas populações inteiras, que podem ela perder traços importantes de sua cultura, ou até serem exterminadas quase por completo.

É possível aprender que ela não é algo heroico, romântico, mas sim horrível, cruel e no geral desnecessário, e que devido a ela pessoas podem ser exploradas economicamente, perderem seus lares e familiares, ser forçadas a viver sob condições precárias e desumanas, aprisionadas, torturadas ou até executadas.

É possível aprender que até entre aqueles que você foi ensinado a odiar há inocentes, com preocupações e dificuldades semelhantes às suas, e que eles muito provavelmente foram ensinados erroneamente a te odiar da mesma forma que você.

É possível aprender que muitas vezes as justificativas para se iniciar uma guerra podem até ser “boas” e válidas, porém à medida que esta se prolonga tais justificativas são esquecidas ou, pior, têm seu sentido corrompido, gerando uma cultura de medo, ódio e idolatria cega à guerra e àqueles que a promovem.

vila de kyoshiPor último, é possível aprender que mesmo com a guerra terminada, nem tudo volta a ser como antes, e as consequências dela podem se estender por muitos anos, gerando ainda mais caos e problemas sociais, ambientais, econômicos e políticos.

Felizmente, em “A Lenda de Aang” vê-se um fim à Guerra dos Cem Anos. Ficam, porém, dúvidas: Como os protagonistas da série conseguirão restaurar a harmonia, após anos de guerra? Como fazer as nações do mundo reaprenderem a se respeitarem, após anos de ódio mútuo? Até onde vão as consequências de cem anos de colonização do Reino da Terra por parte da Nação do Fogo? É possível trazer de volta traços culturais que a guerra presumidamente extinguiu? E o que passa agora a pertencer a cada nação? Tais respostas, como se tem visto, têm sido pouco a pouco respondidas nas comics que os criadores da série têm lançado em conjunto com a editora Dark Horse; porém, tal análise deverá ficar para um próximo momento.

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  • Murilo

    Muito bom o texto. Adorei

  • Bruna

    texto maravilhoso!

  • Jorge Filipe

    Vale muito a pena ler