Como um desenho animado se torna uma lenda

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Por Lucian Guilherme

No dia 21 e fevereiro de 2005, milhares de crianças nos EUA eram apresentadas pela primeira vez a um garotinho 12 anos e seu bisão voador, que estavam presos por 100 anos em um iceberg. Bom, mas vocês já sabem o resto dessa história.

Nesse dia, “O Garoto no Iceberg” foi apresentado pela Nickelodeon aos americanos, mas não creio que nem os criadores Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko e nem a própria Nickelodeon tinham noção do que tinham criado. Avatar A Lenda de Aang (Avatar The Last Airbender, originalmente ou carinhosamente chamado de ATLA) arrebatou milhares de pessoas no mundo inteiro, não só pelo roteiro impecável, mas também pelo carisma dos personagens, excelência na animação e muitas outras características que vamos discutir mais a frente. Vocês me acompanham?

avatar-the-last-airbender-flyingVou contar a vocês minha experiência pessoal: A primeira vez que assisti ATLA, foi estranho. Sim, foi… “Água, terra, fogo, ar. Há muito tempo as nações viviam em paz e harmonia, mas aí, tudo isso mudou, quando a Nação do Fogo atacou..” e blá blá blá… Aquela história que todo mundo já conhece e que pulamos toda vez que vamos assistir um episódio (igual a intro de Game of Thrones). Mas voltando, quando comecei a assistir o garoto no iceberg, não sabia que estava entrando em uma história extremamente complexa, rica em detalhes, cultura e profunda em vários aspectos da vida e sentimentos humanos.

Logo de cara, a ótima animação já chamou muito minha atenção. Misturar elementos de animes, com excelentes cenas de luta baseadas em artes marciais orientais e ainda controlando os elementos? Acertaram na mosca.
Uma curiosidade interessante é que Joaquim dos Santos – que é metade português – entrou para a equipe de produção na metade da segunda temporada e foi o diretor de animação de vários episódios. Sua fama é grande nos EUA, pois seus trabalhos de animação em lutas estão entre os melhores do mundo, sendo um exemplo disso Liga da Justiça Sem Limites, da qual também foi diretor.

Os roteiristas (Michael Dante DiMartino, Bryan Konietzko, Aaron Ehasz e Tim Hedrick), foram muito felizes na criação da história por trás do mundo onde vivem os personagens. Eles conseguiram criar um universo que reúne características (boas e ruins) de várias culturas que são comuns a nós e adicionaram um elemento que marcou a série e deixou as coisas muito mais interessantes… A dobra dos elementos. Que fã de Avatar que nunca se imaginou dobrando uma poça d’água no seu caminho, ou levitando um pedaço de terra e arremessando longe, ou até mesmo fazendo sair uma simples chama das mãos, que atire a primeira pedra!

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A dobra dos elementos é vista nesse mundo como uma extensão da própria pessoa, uma forte conexão com a natureza, assim como muitas culturas asiáticas pregam a conexão do homem com o natural. Infelizmente não poderia ser diferente quando se trata de humanos, pois sempre existem pessoas que entendem que tal “poder” é dado para que se possa subjugar o mais fraco, e isso é o que vimos quando o Senhor do Fogo Sozin, declara guerra contra as outras nações usando o poder do cometa batizado em seu nome.

AvatarsUm outro fato interessante, e que merece ter destaque, é o de que os autores trouxeram a reencarnação como uma realidade de fato importante na série, pois sem ela o Avatar e seu grande poder e sabedoria não existiriam. As vidas passadas trazem toda uma bagagem para o avatar atual e assim sucessivamente, continuando o ciclo. O fato da reencarnação ser uma crença de muitas culturas orientais (e algumas ocidentais), demonstra como a diversidade religiosa pode conviver bem com a sociedade, assim como a maturidade dos produtores em apresentá-la de forma leve e não forçada.

GeestenwereldJuntamente com a reencarnação, temos a adição e um elemento também muito interessante: O mundo espiritual. Apesar de ser um mundo “a parte” do mundo físico e que só o Avatar tem acesso, podemos notar que a riqueza de detalhes e significado em cada ser que habita nesse lugar é enorme. Um destaque para Koh o Ladrão de Rostos, que roubou o rosto do amor da vida passada de Aang, o Avatar Kuruk. Também temos Tui e La, os espíritos da Lua e do Mar que abdicaram de suas vidas no mundo espiritual para viver entre os humanos como simples peixes. A história desses dois espíritos é tão rica que merecia um capítulo a parte. Seus nomes significam “empurrar” e “puxar”, que é o movimento feito pelas marés e que é influenciado diretamente pela Lua. E eles além de representarem o equilíbrio (Ying e Yang), foram os dobradores de água originais e ensinaram os humanos a dobra d´água.

Voltando a falar sobre a questão da guerra apresentada na série, não é novidade para a raça humana que a mistura de nação poderosa + líder que crê que seu povo é superior ao resto do mundo, resulta em holocausto. São inevitáveis as comparações com líderes como Hitler que acreditavam piamente que sua raça era superior às demais e que tentaram através da força transformar o mundo (para pior). O genocídio da Nação do Ar trouxe um drama especial para a série, uma profundidade que nenhum outro desenho que já vi em minha vida trouxe.

wan shi tingUm exemplo claro disso é mostrado no Livro 2, Capítulo 10, quando Aang e seus amigos estão na biblioteca de Wan Shi Tong tentando descobrir alguma fraqueza da Nação do Fogo e são pegos pela coruja espírito do conhecimento Wan Shi Ting. Ela diz o seguinte: “Acha que é a primeira pessoa que pensa que sua guerra é justificável? Incontáveis outros já vieram antes de você procurando armas, fraquezas ou estratégias de batalha…”. Enquanto a maioria dos desenhos mostram a luta entre o bem e o mal, ATLA mostra uma guerra de verdade, entre pessoas com vários pontos de vista. A Nação do Fogo não é um nação maligna (assim como a Alemanha também não era), mas sim um povo reprimido e mantido sob o controle restrito de seu governante.

tumblr_n8ijdeDkOc1tg6gr1o1_1280Quantas vezes, a história foi alterada e ensinada como fato, para que o povo crescesse sendo moldado para odiar outros povos? Mas depois vemos que Ba Sing Se, que deveria ser o lugar que se oporia á Nação de Fogo em ideais, mas que acaba se tornando também um lugar de repressão e mentiras. Somente Aang com seus valores morais e Zuko com seu caráter, conseguem quebrar essa trama entre quem está certo e quem está errado.

Definitivamente ATLA não é um desenho só para crianças, mas para crianças grandes também.

Saindo um pouco do roteiro e olhando para os personagens, vemos que mais uma vez os roteiristas fizeram um trabalho excepcional. Começando pelas características das nações, é possível ver uma miscelânea de culturas, etnias e religiões. A tribo da água com sua pele morena, olhos castanhos e azuis, traços dos povos esquimós do norte, resistentes ao tempo e às dificuldades, unidos como uma família. A Nação do Fogo, bem organizada e disciplinada, assim como o Japão feudal, com cidadãos de pela clara, cabelos pretos e olhos cor de âmbar. Reino da Terra, nação forte e populosa assim como a China, com habitantes na maioria com traços asiáticos e bem temperamentais (Toph que o diga…). E por último, os Nômades do Ar, com a cultura bem semelhante á Hinduísta e com alguns traços da cultura indiana. Possuem indivíduos na maioria de pela clara, calmos e pacíficos, desprendidos do mundo e das coisas materiais.

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Cada personagem principal, carrega essas características consigo, além de uma história muito bem trabalhada e rica.

Sokka, obrigado a se tornar o homem da família muito cedo, inteligente, bom estrategista, com seu carisma e mau humor andando lado a lado, busca sempre ser o porto seguro de todos e tem medo de falhar com aqueles que ama.

Avatar-The-Last-Airbender-Free-Download-2 (2)Katara, com seu jeito doce e maternal de ser herdado de sua mãe, não deixa de ser forte e decidida no que quer. Está sempre tentando ver o lado positivo mesmo nas coisas ruins. Possui um senso forte de justiça, mas também é muito compassiva (prova disso é quando se oferece para curar a cicatriz de Zuko quando estavam presos, mesmo depois de tudo que ele havia feito).

Toph, seu jeito turrão de ser esconde uma garotinha frágil e que queria apenas ser reconhecida pelos pais, que a viam como uma inválida. Não cria vínculos facilmente com as pessoas, justamente por saber como elas realmente são por dentro e com o tempo, criou uma muralha que a afastava de todos, que só foi derrubada depois que conheceu Aang e seus amigos.

Zuko, príncipe herdeiro da Nação do Fogo, cresceu entre o amor da mãe, o desprezo do pai, e o fato de sua irmã ser melhor em tudo. Mesmo depois ser humilhado, marcado á fogo no rosto, banido por anos, tomado como traidor e acolhido novamente, queria o reconhecimento do pai e depois que o conseguiu, percebeu que não valia a pena. Teimoso e explosivo, é uma pessoa muito machucada por dentro e com uma determinação fora do comum para fazer algo, doa a quem doer e que achou seu caminho graças a seu tio Iroh que foi como um pai.

E por último mas não menos importante, Aang. Nunca quis ser o Avatar por achar que isso o afastaria as pessoas que gostava. Sempre foi um garoto querido por todos por seu jeito doce e brincalhão de ser. Após retornar do seu confinamento no gelo, teve que aceitar a dura realidade de perder todo o seu povo, cultura e as pessoas que amava. Teve que esquecer sua infância em pouquíssimo tempo, mas não a abandonou por completo. Possui um senso de justiça e bondade que para um garoto de 12 anos, são excepcionais. Mesmo sendo calmo e pacífico, é humano, e tem seus momentos de raiva, como quando Appa foi roubado no deserto. Mostra que alcançou a maturidade emocional quando apesar de até mesmo os Avatares anteriores lhe dizerem para tomar a vida do Senhor do Fogo Ozai, controlou o estado avatar e poupou-lhe, apenas tirando sua dominação, simplesmente por não achar que matar era correto.

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Percebe Ivair, a profundância dos personagens?… Brincadeiras a parte, não falei nem a metade do que poderia falar sobre os personagens principais e dos outros que são apresentados e que aprendemos a odiar e depois amar (Azula, essa foi pra você <3). Teria que escrever uma tese de doutorado para falar de tudo e de todos, tamanha complexidade do universo mostrado em ATLA.

6365_avatar_the_last_airbender_hd_wallpapersAh, não posso me esquecer é claro dos mascotes mais queridos de todos os tempos. Appa e Momo. Quando vislumbrei Appa pela primeira vez pensei comigo: “Caramba, a criatividade desse povo está a cada dia maior…”. Um animal maior que um elefante, peludo, com uma seta na cabeça, seis pernas e ainda capaz de voar (mesmo não sendo nem um pouco aerodinâmico), me pareceu um pouco exagerado demais á primeira vista, mas com o passar do tempo fui me 20850_avatar_the_last_airbenderapegando a ele de tal forma, que queria ter um bisão voador para mim. Sem contar que sofri junto com Aang quando Appa foi roubado no deserto e alguns episódios a frente é mostrado como ele sofreu nos seus dias longe de seu dono. Com Momo foi o mesmo, aquele macaquinho orelhudo e esperto me fez dar boas risadas (principalmente depois de tomar suco de cactos).

6399_avatar_the_last_airbender_hd_wallpapers (1)who-is-the-my-cabbages-guy-403080Falando de boas risadas, o humor é sempre presente na série. Sokka é um dos personagens mais carismáticos (e palhaço) que já vi em um desenho animado, sempre com suas piadas sem graça, tentativas (frustradas) de dar nome a equipe e sua tendência em provar coisas desconhecidas. Mas é claro que não podemos esquecer de duas figuras que também arrancaram risadas de muitas pessoas: o cara da boca espumante, que toda vez que via Aang começava a espumar pela boca e logo depois desmaiava, e o mercador de repolhos que toda vez que se encontrava com o avatar e seus amigos tinha seu carrinho de repolhos totalmente destruído.

Focando agora nas interações sociais dos personagens principais, depois de assistir a todas as temporadas, pude concluir que mesmo com suas qualidades e defeitos, todos eles mostram um senso de inclusão incrível, e isso é fantástico para ensinar crianças a não excluir pessoas por serem diferentes.

Podemos concluir isso por dois fatos: Primeiro: não ser um dobrador, não o faz um pobre coitado que é digno de pena. Muitos não-dobradores têm um papel importante no enredo, inclusive em alguns momentos superando dobradores poderosos. Sokka, é respeitado como membro valioso do time e nunca foi discriminado por não ser dobrador. Temos também Azula, que mesmo sendo o prodígio da dominação do fogo, escolheu Ty Lee e Mai para acompanhá-la, por serem suas amigas e por confiar plenamente nas habilidades das duas em combate.

Segundo: Ter uma deficiência é o primeiro passo para você ser foda. Toph é o maior exemplo disso. O fato de ser cega, apenas deu a ela um meio de se tornar a melhor dominadora de terra do mundo e precursora da dominação de metal. Além do mais, ela também era muito respeitada dentro da equipe e sua deficiência não era impedimento para nada (exceto talvez para pregar um cartaz numa parede…), mas ainda assim ela e os outros membros faziam brincadeiras saudáveis a respeito de sua cegueira. Assim como na vida real, muitas pessoas com deficiência aprendem a se superar e acabam se tornando melhores do que pessoas “normais” em muitas coisas. Simplesmente incrível.

Enfim, poderia continuar escrevendo sobre esse assunto por dias, mas haja tempo e paciência de vocês leitores para ler páginas e páginas… Esse humilde artigo foi escrito com um intuito apenas para expressar o quanto essa obra mudou minha vida, para melhor, e me ensinou muitas coisas boas. Agora um pedido: Obrigue recomende alguém a assistir ATLA e depois só escute os agradecimentos, assim como já fiz com alguns amigos.

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Escreverei mais a frente sobre The Legend of Korra, pois não teria como não o fazer… A nova avatar também arrebatou meu coração tanto quanto, se não mais do que Aang.

Um forte abraço e espero que tenham gostado!
Fiquem com Raava!

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