Refletindo sobre a importância do equilíbrio

Esse artigo foi extraído do Blog Mil. Conheça o trabalho deles através desse link.

É uma forma estranha de começar um artigo, mas acho que as pessoas subestimam o poder de um momento de tédio. Sabe, aquele momento que você não tem nada pra fazer, mas ao mesmo tempo quer fazer tudo que está pendente, só não sabe por onde começar. Nesse momento de confusão mental, procuramos algo para focar nossa atenção e nos tirar daquele marasmo, e o que se pode encontrar no final desse túnel de possibilidades pode ser recompensador.

Foi isso que aconteceu comigo em uma noite fria e tediosa, em que decidi finalmente assistir Avatar: A Lenda de Aang, um desenho que ignorei por muito tempo por puro preconceito ou preguiça, e agora, estou completamente investido no seu universo, tendo assistido ambos A Lenda de Aang e de Korra seguidamente em duas semanas.

Trilha sonora não-oficial.

Não é a toa, com uma mistura tão convincente e caprichada da cultura e filosofias orientais é extremamente difícil não ficar fascinado pelo seu universo. Fascinou tanto que me deu motivação pra voltar do limbo e escrever esse artigo, onde pretendo falar sobre as duas animações e o seu mundo em geral, tentando ao máximo não soltar nenhum grande spoiler no processo — além de tentar descobrir por trás de todas as suas qualidades, qual o ”elemento” central que torna Avatar essa obra tão sublime (algo que talvez o título do artigo spoile).

Lembrando que não é exatamente uma ”análise”, e sim apenas impressões de alguém assistiu e quer falar sobre — chamamos isso aqui no blog de análise pouco convencional.

O Mundo de Avatar

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A palavra Avatar, antes de virar um termo corriqueiro das nossas vidas virtuais, representando as imagens de desenhos coreanos que nos desqualificam como seres humanos a serem levados a sério em redes sociais, é um conceito milenar do hinduísmo e significa algo como ‘’aquele que desce’’, basicamente a encarnação de uma divindade que ‘’desce’’ até o mundo carnal para trazer algum beneficio para o mesmo. Em outras palavras, é uma espécie de salvador.

Quando os criadores de A Lenda de Aang, Michael DiMartino e Bryan Konietzko decidiram criar o desenho, eles tinham a intenção de fazer uma história simples seguindo a linha de ‘’A Jornada do Herói’’ com um garoto tendo o destino de salvar o mundo. Sendo uma história fortemente inspirada pela cultura oriental e tendo o protagonista destinado a ser uma espécie de salvador, eles somaram dois mais dois e encaixaram o conceito de Avatar na história.

Porque diabos estou falando tudo isso? É simples. Pra demonstrar como a construção desse mundo é realista.

Sim, eu sei que é estranho chamar  um mundo que tem um bisão voador do tamanho de nossas mães de realista, mas para um mundo ser realista ele não precisa seguir estritamente a vida real, precisa só seguir suas próprias regras de modo que aquilo tudo faça sentido. E ele faz isso pegando diversas inspirações (como o conceito de Avatar) e encaixando em seu mundo de forma tão orgânica e natural que fica parecendo algo original dele.

254b6d101a678fb4c92748fe10c7c701Ou seja, nada de pegar inspirações e joga-las lá só porque são legais , todos os conceitos aqui — sejam originais ou baseados na vida real — trabalham em harmonia de forma equilibrada pra criar um mundo coeso e com identidade própria.

E desses conceitos, talvez o mais importante seja a dobra de elementos da natureza. Sim, eu sei que usar elementos como poder é algo tão antigo que está no imaginário humano desde que a Dercy brincava de montar em dinossauros na infância, mas em Avatar isso é muito mais do que um simples “poderzinho legal”.

Cada elemento tem sua essência própria, que de certa forma  influência o ‘’usuário’’. As aspas na palavra usuário não é porque sou viciado em colocar aspas sempre que tenho chance, é porque a dominação de elemento tem menos a ver com ‘’usar’’ e mais a ver com… digamos, ‘’se unir’’ (viu como eu adoro aspas?). O elemento não é uma arma a ser usada, é uma extensão da própria pessoa, e ela precisa de disciplina e treino para ficar em harmonia com ele.

Em outras palavras, é como uma filosofia. 

O que não tira o fato de também serem ‘’poderzinhos legais’’. Quero dizer, não é só levitar uma pedra ou atacar com uma rajada de água, os poderes aqui são bem dinâmicos, o que torna as lutas variadas e com bastante improviso, isso sem contar que são baseadas em estilos de arte marciais reais.

A própria concepção das dominações é caprichada, tendo toda uma ‘’hierarquia’’ e regras entre os poderes que são bem bacanas. Só não me aprofundo nisso aqui porque não quero transformar esse artigo em um livro, e é um assunto tão bacana que merece ter um texto exclusivo.

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Olhem quantas variações de dobra

Mas enfim, já que a dobra dos elementos é, antes de tudo, uma filosofia, isso significa que ele influencia intensamente a cultura do mundo, tendo cada uma das nações representando um dos quatro elementos. Não é só uma representação genérica, eles realmente carregam a essência de cada um deles.

giphyA Tribo da Água, que reside nos polos sul e norte,  assim como o elemento que representa, tem uma certa ‘’fluidez’’ em sua essência, sendo um povo bastante cordial e adaptável, com um grande senso de comunhão que os mantém unidos. Até seu estilo de luta segue essa fluidez, baseado na arte do Tai Chu Wan, com movimento suaves como as marés — o que faz sentido, afinal foi assistindo a relação da lua com os mares que eles aprenderam a dobrar a água.

8506680_origJá o povo do Reino da Terra, apesar de ser bem diverso culturalmente devido ao tamanho de seu território ser o maior de todas as nações, compartilham em comum a característica de serem durões e orgulhosos — para não dizer ranzinzas. Apesar de alguns conflitos internos, eles seguem a filosofia de viver pacificamente com as outras nações. A dobra de terra tem talvez o meu estilo favorito de todos mostrados no desenho: O Hung Ga, que exige tanto forte musculatura, como também foco e atenção, esperando pacientemente o momento certo de atacar, mas sendo devastador no processo.

community_image_1423086874Também temos os Nômades do Ar, monges dominadores de ar que vivem isolados no topo das montanhas, mas que eventualmente viajam pelo mundo montados em seus enormes bisões voadores, que mais do que meros bichos de estimação ou símbolo desse povo, são os ‘’mestres’’ originais que ensinaram os primeiros dobradores a dobrar o ar. Como é de se esperar, por serem monges, eles são extremamente pacifistas e valorizam toda a vida como algo sagrado, vivendo sob a filosofia de se desprender dos problemas terrenos para alcançar a iluminação, que é a leveza da verdadeira liberdade. Portanto, são bem evasivos quando tem de lutar, usando a dinâmica do ar a seu favor para evitar os ataques do oponente ou quando não há escolha, atacar.

avatar_the_last_airbender_elements_water_earth_fire_air_003_1Por fim temos a temida Nação do Fogo, o elemento do poder, e eles seguem essa essência à risca. Sim, poder é o aspecto central da cultura imperialista da nação do fogo, um povo feroz moldado pelo desejo e vontade, qualidades que fazem dessa nação uma potência militar, econômica e tecnológica. Essa ferocidade é levada para o campo de batalha, e porra, como eles são ferozes! Eles lutam simplesmente uma das melhores, se não a melhor, técnica de luta do Kung Fu: o chamado ‘’Shaolin do Norte’’, que conta com ataques fortes, rápidos e precisos, e tendo um foco total na ofensiva e na agilidade.

Por serem tão influenciados pelo poder e vontade, a dobra de fogo é a única independente do ambiente, pois ela é fortalecida pela motivação do dominador e  controlada pelo seu fôlego, ou seja, ela vem de dentro. Assim como o fogo, essa cultura de valorização ao poder e a vontade não é necessariamente ruim, o problema é quando foge do controle e se torna caótica como um incêndio, e por isso eles vivem &nbsp na linha tênue entre o controle e descontrole.

É claro que há muitas outras influências na criação dessas nações, que vão de impérios e dinastias orientais até monges tibetanos e tribos aborígenes, mas como eu espero ter demonstrado acima, os caras conseguiram pegar algo tão defasado como domínio de elementos e fazer a façanha de criar um mundo único e interessante em torno dele, e isso é ALGO.

O elo entre dois mundos

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A importância dos elementos é um dos motivos pelo qual o Avatar é tão essencial, pois é o único que consegue dobrar  todos os quatro elementos se tornando assim a personificação da harmonia e o equilíbrio entre as quatro nações. Mas os poderes — e consequentemente responsabilidades — do Avatar vão além disso, pois por ser uma criatura espiritualmente sublime, ele também é o elo entre o mundo físico e o espiritual.

O mundo espiritual é um plano etéreo paralelo ao carnal, mas não é exatamente um ”além” onde as almas das pessoas vão depois de morrer, e sim lar de criaturas espirituais que são personificações de diferentes aspectos da natureza — apesar de haver casos de pessoas tão fortes espiritualmente que conseguem transcender depois da morte e formar uma personificação própria no mundo espiritual.

kohE ás vezes consegue ser um lugar meio assustador também.

Apesar de ser de difícil acesso aos humanos comuns, o mundo espiritual pode sim ser afetado pelas ações ou emoções deles no mundo carnal, e é aí que entra o Avatar para impedir qualquer tipo de conflito entre os dois planos. Sim, é literalmente ter o peso de dois mundos nas costas.

avatar_line-upA forte conexão espiritual do Avatar o faz ter acesso também a suas reencarnações passadas, que criam uma conexão espiritual de milênios. Mas ele não tem acesso aos Avatares passados só para pedir conselhos ou coisa do tipo, claro que não, em momentos de muito impacto emocional como raiva e tristeza súbita, todo o poder ancestral dos outros Avatares despertam de uma vez, no chamado Estado Avatar.

E ver o Avatar nesse estado, com toda sua fúria e poder despertos é uma das melhores coisas desse desenho.

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Há também outra habilidade poderosa que só o Avatar é capaz de fazer: a dobra de energia. É uma técnica tão misteriosa e perigosa que poucos Avatares já usaram, basicamente a dobra da própria energia que da origem a todas as outras dobras, um conceito fascinante que eu gostaria que explorassem mais, apesar de ao mesmo tempo curtir esse tom de mistério em torno dela. Quer dizer, até temos algumas respostas sobre ela, mas falo disso mais tarde.

Apesar de todos esses poderes e habilidades, talvez o que mais o Avatar simbolize é o sentimento de esperança para o povo, ele é um pilar que sustenta a ordem apenas pelo fato de existir. Sem ele, todos os povos iriam inevitavelmente cair em desespero e ficar vulneráveis, por isso o Senhor do Fogo Sozin aproveitou a morte do então Avatar, Roku, para atacar a próxima nação do ciclo de reencarnações do Avatar (Água, Terra, Fogo e Ar), os Nômades do Ar, causando um genocídio e dando inicio a uma sangrenta guerra em busca da expansão da Nação do Fogo.

E justamente quando todos mais precisavam, o Avatar desapareceu do mundo por todos esses cem anos de guerra, deixando o povo a mercê do sofrimento e consequentemente perdendo cada vez mais a esperança que o Avatar representa.

A guerra dos cem anos

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Mas nem todos perderam a esperança de que o Avatar retornaria, como a jovem Katara da Tribo da Água, que por uma baita coincidência do destino encontrou um garoto congelado no mar com um enorme bisão sonolento enquanto tretava com seu irmão, Sokka.

Esse garoto é Aang, o ultimo dobrador de ar e o Avatar desaparecido por todos esses anos.

avatar-aang-katara-sokkaO salvador da humanidade, o único que pode livra-los da guerra que assola o mundo, não é um ancião iluminado que passou cem anos em exílio treinando em busca de iluminação, e sim um moleque que a primeira coisa que diz ao acordar é convidar Katara pra brincar de montar em um pinguim do polo sul.

A responsabilidade de salvar o mundo cair em cima de um garoto não é exatamente um tipo de história nova na cultura popular, mas sinceramente eu adoro esse tipo de abordagem, principalmente quando é bem feita como aqui.

Aang de repente acorda em um mundo bem diferente do que ele se lembrava, tendo que lidar com a culpa de ter ‘’abandonado’’ a todos nesses cem anos de guerra, com a enorme responsabilidade de aprender a dobrar todos os elementos  e derrotar o atual Senhor do Fogo Ozai o quanto antes, tudo isso enquanto ainda é uma criança.

E a narrativa trabalha com esses dilemas, é uma maravilha acompanhar o crescimento do personagem durante o desenho, de como ele amadurece e passa de uma criança inocente ao salvador que o mundo precisa. E esse crescimento não se limita a Aang, ele é perceptível em vários personagens, inclusive em  Katara e Soka que são mais do que a ”menina boazinha” e o alívio cômico do desenho, afinal eles são crianças vivendo durante uma guerra que causou traumas em suas vidas, como a morte da mãe e a ausência do pai, e é bacana acompanhar como eles lidam com esses dilemas, o que tornam muito mais  interessantes.

e5a0cae7aa8a9519a5982e00f19e6f13De fato, parece fanboysismo exagerado de minha parte, mas não consigo pensar em nenhum personagem chato e irritante nesse desenho. Aang é adorável, assim como Katara que tem uma personalidade forte o suficiente para ser durona e doce ao mesmo tempo, quase como uma figura ”materna” para o grupo, enquanto Sokka é um alívio cômico realmente cômico — e isso é algo considerável se tratando de um desenho essencialmente engraçado. Isso sem falar em Toph, uma garotinha cega dominadora de terra tão fodona que transformou sua ”limitação” em vantagem, criando um estilo de luta próprio em torno disso.

b54b54bd354a24751f1cbe1ad9748aacMas voltando a falar sobre como os personagens amadurecem durante o desenho, talvez o maior exemplo de como isso acontece naturalmente e de forma bem feita seja o filho de Ozai, o príncipe exilado Zuko.

Zuko é o personagem mais atormentado do desenho, com a marca de um trauma do passado literalmente estampada no rosto e tendo como única saída para recuperar sua honra capturar o Avatar, que se tornou também um símbolo de esperança pra ele, mas de forma distorcida. Sim, ele é um ‘’vilão’’ no sentido de ser um antagonista para o Avatar, mas não é exatamente mal, e essa é outra característica do enredo que ajuda a transmitir ainda mais essa sensação de realidade: poucos personagens são unidimensionais, todos tem diversas camadas de personalidade que são exploradas.

A mesma coisa para o tio de Zuko, Iroh, um antigo general lendário da Nação do Fogo que se aposentou e decidiu acompanhar Zuko em seu exílio. Mesmo pertencendo a Nação do Fogo, Iroh é um personagem adorável, engraçado e sábio, sempre dando bons conselhos para o sobrinho (que nem sempre os segue). Por tudo isso, e por cenas maravilhosas como essa, ele é meu personagem favorito.

Leaves from the vine, composta por Jeremy Zuckerman.

Até mesmo os vilões eu não consigo odiar 100%… tá, eu odeio Zaoh e outros generais imbecis da Nação do Fogo, mas esses são criados para gerar ódio mesmo, talvez os poucos exemplos de personagens unidimensionais do desenho.  Já a princesa Azula, vilã mais presente no enredo e irmã de Zuko, eu sinceramente não consigo odiar completamente.

d6dae0452d744a8ef8454582c8001a06Sim, ela é sádica e comete atrocidades sem sentir nenhum tipo de remorso, mas ainda assim no fundo eu tenho uma empatia por ela, não sei se é porque ela é só um mero reflexo  do ‘’filho perfeito’’ que seu pai Ozai sempre almejou (ou seja, ele alimentou o seu sadismo durante toda a vida dela para a torna-la uma arma domável) ou simplesmente por ser uma baita de uma vilã foda, eu simplesmente gosto dela, vamos lá, me julguem.

E falando em Ozai, acho que não poderia ter vilão melhor para esse desenho. Já vi uma galera reclamando que ele não é um vilão bom só porque é ‘’ausente’’, e isso é ma critica é extremamente estúpida. O  fato de ter um mistério em torno de Ozai durante toda a história só contribuiu para o personagem, você consegue sentir uma aura ameaçadora em torno dele mesmo ele aparecendo pouco, só em flashbacks com  sombras cobrindo seu rosto.

tumblr_m518znq4qb1rss05ao1_r2_500Ele não precisa aparecer em todo episódio para apanhar e fugir prometendo vingança como uma espécie de Equipe Rocket, sua ‘’sombra imponente’’ paira por todo o enredo, seja como o imperador da nação responsável pela guerra, ou como a figura central para o tormento de Zuko e Azula, ele está ali sempre presente de forma indireta.

O que só aumenta o impacto de quando ele realmente aparece, e da sua única luta com Aang no final. E que luta! Eu não quero falar muito disso porque, ora, é a luta final, mas basicamente ela pega todas as qualidades que o desenho mostrou em termos de animação e combate durante os seus episódios e reúne em uma única batalha.

Eu sei que a palavra ”épico” é muito usada por nada hoje em dia mas pra essa luta final ela é muito bem empregada.

O enredo é muito bem montado e equilibrado, oscilando por momentos de comédia, ação, FEELS, e até romance adolescente tão bem feito que não te força a vomitar, basicamente uma aula de como montar uma boa história, sendo dividida em três temporadas (que se chamam ‘’livros’’ aqui, todas com o nome de um elemento que Aang deve aprender) de 61 episódios, se construindo aos poucos para o que deve ser um dos finais mais satisfatórios que um desenho irá lhe entregar.

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Pode parecer exagero todos esses elogios, mas eu realmente não consigo achar nenhum defeito significante… talvez eu possa citar que o fato dele ser criado para o público infantil (apesar de ser mais maduro que muito desenho ‘’adulto’’ por ai) possa tê-lo ”limitado” um pouco, no sentido de não poder mostrar nenhuma violência de mais grave, mas por que eu faria isso se esse ‘’defeito’’ não o influência negativamente durante todos os episódios? Diabos, ele consegue transmitir o impacto da guerra mesmo sutilmente de forma melhor que muito filme ou jogo de guerra cheio de mutilação pra impressionar adolescente que tem por aí.

Mas enfim, felizmente perceberam que Avatar era um produto diferente e que tinha um mundo rico com muita coisa a ser explorada, e em 2012 ele ganhou uma aclamada continuação chamada A Lenda de Korra.

Um tempo de mudanças

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Antes de mais nada, é preciso deixar claro que, ao contrário da maioria dos fãs que esperaram uma continuação de Avatar desde 2008, eu tinha ela a minha disposição no dia seguinte, então minha perspectiva provavelmente vai ser diferente de quem esperou tanto tempo. Pra falar a verdade, eu tive uma experiência tão positiva e conclusiva com A Lenda de Aang que fiquei meio receoso em assistir Korra.

’’E se eles estragarem? E se introduziram coisas nada a ver e lascar com tudo?” Eram esses tipos de pensamentos que passavam pela minha cabeça, ao mesmo tempo em que tava morrendo de vontade de continuar a ver algo dentro daquele universo tão bacana. No fim acabei indo ver, e se eu tava com medo de alguma mudança drástica… A Lenda de Korra já chegou dando uma voadora de dois pés no meio da minha fuça.

A história se passa uns 70 anos após o fim do desenho anterior, e o mundo evoluiu mais do que nunca nesse período, abraçando
completamente aquela vibe steampunk que o desenho anterior já flertava. O centro industrial desses novos tempos é a Cidade República, uma espécie de ‘’capital neutra’’ onde os líderes das grandes nações se reúnem para suas discussões, e um pequeno sinal de que o antigo modelo de governo do mundo está com os dias contados.

dyfk0Mas a mudança que causou maior impacto pra mim nesse inicio foi como agora as dobras de elementos estão ‘’banais’’, pelo menos na Cidade República. O que antes era quase como uma filosofia, agora virou até esporte. Mas o melhor exemplo que posso dar dessa banalização é como a dobra de eletricidade, uma técnica tão perigosa e secreta que era restrita a família real da Nação do Fogo no desenho anterior, agora é usada para abastecer a energia de fábricas.

É o preço do progresso, eu acho.

Digo, nem todas as mudanças me incomodaram  desse jeito, eu adorei a proposta de modernização e progresso do desenho, tentando ‘’seguir em frente’’ ao mesmo tempo mantendo a essência do mundo, é admirável sim, mas é impossível não sentir um certo impacto com algumas dessas mudanças, principalmente alguém que acabou de assistir o desenho anterior.

Mas, falando da história em si, após a morte do nosso querido Aang, o espírito do Avatar retorna ao plano físico mais uma vez, agora para encanar em uma garota da Tribo da Água chamada Korra, que ao contrário da natureza pacifica de Aang, é esquentada, teimosa e com personalidade forte.

tenzin-is-surprisedPor isso mesmo ela tem dificuldades em dominar o ar (já que por algum motivo, já domina os outros três elementos desde criança) e para treina-la temos Tenzin, o único dos três filhos de Aang que domina o ar, e portanto tem a enorme responsabilidade de ser o reinicio de toda uma nova geração de Nômades do Ar — e por essas e outras ele é um dos meus personagens favoritos aqui.

Então Korra vai pra Cidade República e ….ok, eu admito que é complicado falar da história desse desenho porque ela é estruturada de forma bem diferente do anterior. Se antes tínhamos um objetivo definido lá no primeiro episódio que duraria todas as três temporadas, crescendo e se desenvolvendo até o final, aqui cada uma das quatro temporadas tem um vilão e um objetivo. 

Ou seja, apesar de cada temporada ser conectada por alguns acontecimentos cruciais, elas dão a impressão de serem ‘’fragmentadas’’.

Sim, eu sei que é um novo desenho e ele ter um novo formato de narrativa não é de se espantar, mas não deixa de ser anticlimático o vilão de uma temporada ser uma puta entidade cósmica, para na outra ser uma trupe de bandidos dobradores—  e o desenho querer insistir que isso é um perigo muito maior do que o anterior. Além disso, as temporadas tem um número menor de episódios do que antes, o que prejudicou o desenvolvimento de alguns personagens, e talvez por isso… nem todos são legais.

Na verdade, eu não vou muito com a cara nem do próprio grupo de protagonistas, que é composto pelos irmãos Bolin e Mako, alívio cômico e chatice encarnada respectivamente, a linda e milionária Asami, e por ultimo claro, Korra.

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Asami é apenas “ok”, eu gosto de Bolin que pra mim cumpre seu papel  de alívio cômico, e além disso, ele  e seu irmão terem um passado triste dão uma carga emocional maior aos personagens, mas nem isso é suficiente para me fazer gostar do Mako, personagem tão chato que é capaz de fazer você dropar da série logo nos primeiros capítulos (conheço gente que fez isso), principalmente porque forçam um triangulo amoroso estúpido entre ele, Korra e Asami.

E a Korra é… bem, sinceramente ela é bastante detestável. Eu fiquei feliz com a ideia de uma mulher protagonista, ainda mais com a proposta de ser tão diferente de Aang em personalidade, mas precisava criar uma personagem tão chata? Digo, eu entendo que ela tem personalidade forte (até porque o desenho joga isso na nossa cara toda hora) mas é impossível não ficar puto vendo ela tratar feito bosta pessoas que gostam dela, como o seu mestre Tenzin e o próprio Mako.

korra-screenshot-finale-12Sério, eu deveria ficar feliz vendo o Mako sofrer namorando a Korra e tendo que aguentar a birra aborrecente dela, mas ela conseguiu a proeza de me fazer sentir alguma empatia por ele, tem ideia do quanto isso diz?

Claro que, esses personagens se desenvolvem de certa maneira durante as temporadas, principalmente na última onde passei a gostar mais de todos eles (incluindo a Korra), mas se fosse depender deles para continuar acompanhando o desenho, eu teria largado na primeira temporada.

bumi_and_kya_teasing_tenzinFelizmente, Korra é um desenho muito mais abrangente em relação aos personagens secundários, e eles tem bastante destaque aqui, muitas vezes prendendo mais minha atenção do que os protagonistas. É o que acontece com Tenzin, que como já disse ali em cima é um dos meus personagens preferidos, e a relação deles com os irmãos Bumi e Kya é muito bacana de se ver, e não é só por ter uma ligação com Aang, mas por serem personagens legais mesmo.

O mesmo digo para a relação das filhas de Toph, a durona Lin (outra que também é um dos meus personagens favoritos) e Suyin, mas no caso delas é algo a mais do que simplesmente ”relação conturbada”, talvez ”traumática” seja uma palavra melhor para descrever.

Ah, claro que não posso esquecer de Varick, um gênio extremamente dependente de sua assistente Zuli, e personagem mais engraçado do desenho.

DO THE THING

DO THE THING

É claro que por ter bastante personagens secundários nem todos eles são legais, em especial o filho de Tenzin… como eu odeio esse moleque. Além de irritar sempre que abrir a boca porque só fala besteira ele tem piadas com peido, algo que deixou de ser engraçado faz uns 15 anos.

Mas, se os personagens estão tão nivelados aqui, o que dizer então sobre os vilões?

tumblr_ng2ih4w8p41ttumvco1_500Na primeira temporada temos Amon, um líder revolucionário que odeia dominadores e quer jogar a opinião pública contra eles, na segunda temos Unalaq, um sábio espiritual que quer abrir dois portais espirituais e libertar uma entidade cósmica do mal, depois vem Zaheer e sua trupe de anarquistas da Lótus Vermelha e por fim a ditadora Kuvira.

Apesar de nenhum deles ser tão marcante quanto Azula, por exemplo, com exceção de Unalaq, eles são bacanas. Sim, Unalaq é extremamente decepcionante. Ele aparece no inicio como um sábio espiritual, e portanto seria bacana se a motivação dele envolvesse esse conhecimento, mas de uma forma mais inteligente e ambígua, talvez sendo algo ”ruim” para o mundo, mas que Unalaq achasse que fosse bom, entende? Algo que nos fizesse refletir se ele tinha razão ou não. Ao invés disso, o objetivo dele é libertar Vaatu, praticamente a personificação da maldade e escuridão para se fundir com ele e virar o ”Avatar sombrio”, dominando o mundo depois no maior estilo ”muahahahaha” de vilão.

b5d3f8be08b46ac41192521a5a3d4845Não é um plot necessariamente ruim, mas eu realmente esperava muito mais desse vilão.

Já Amon é misterioso e ameaçador o suficiente para nos manter intrigados (apesar de seu final dividir opiniões), Zaheer foi uma forma inteligente do desenho mostrar que até a filosofia de liberdade dos dominadores de ar pode sair do controle, e Kuvira é a melhor vilã dentre eles. Ela é muito parecida com Korra no sentido de ser forte e determinada, mas leva essas qualidades longe demais, servindo de um reflexo negativo perfeito para Korra, justamente na ultima temporada onde ela estava mais abalada psicologicamente, e como consequência quando ela mais cresce como personagem.

De fato, depois de todos os altos e baixos das primeiras três personagens, a ultima é a melhor de todas pra mim — com destaque para o episódio ”Korra Alone”, um dos melhores de todo o desenho. Mesmo ironicamente sendo a temporada mais curta, ela é a que melhor desenvolve os protagonistas, e isso talvez por arriscar em separa-los por um tempo e deixa-los por conta própria. Até do Mako eu gosto nessa temporada!

Além disso, a temporada termina uma batalha sensacional mesmo usando o clichê de robô gigante destruindo cidade. Sério, se tem uma coisa  que não se pode reclamar aqui são as batalhas, são um verdadeiro espetáculo.

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O final de Korra divide tanto opiniões da fanbase que vou abrir uma exceção aqui pra SPOILER (apesar que tem tanta gente por ai que não viu o desenho opinando sobre esse final que nem sei se é spoiler mais) então se você ainda não viu e não tem ideia do que seja,  está avisado.

b0e348de5076c9cb22e71c7df004af63Sim, estou falando do romance de Korra e Asami, (ou ”Korrasami”, como preferir) que muita gente achou forçado. Isso seria verdade na perspectiva das duas primeiras temporadas, mas a partir da terceira a relação entre as duas vai ficando cada vez mais próxima, então não acho um absurdo elas ficarem juntas no final, na verdade é um casal bem melhor que Korra e Mako, por exemplo.

Meu maior problema com o final é ele não ser conclusivo o suficiente, e isso é culpa de novo da narrativa. Se ela já enfrentou uma entidade cósmica na segunda temporada e parou uma ditadora na quarta, o que me garante que uma semana depois daquele final não aconteça alguma merda de novo?

Foi um bom final de temporada, não um bom final de desenho.

Mas quando terminou, meu sentimento em relação a Korra foi tão contraditório quanto o que eu tive antes de começar: ao mesmo tempo que muitas vezes me entediei e me irritei, foi divertido e legal o suficiente para me fazer terminar e até me deixar triste quando percebi que estava acabando — o que talvez queira dizer que apesar de tudo, foi muito mais uma experiência positiva do que negativa.

Enfim, vou aproveitar que já abri a porteira de SPOILERS aqui e falar de algo tão bacana que seria imbecil terminar o artigo sem mencionar. Trata-se de talvez a maior e melhor contribuição de Korra para o mundo de Avatar…

Retornando às origens

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Se a segunda temporada de Korra foi meio decepcionante por… ter um vilão decepcionante, é inegável que sua premissa de focar no mundo dos espíritos — algo que foi tão pouco explorado em Aang — tenha sido genial. E o ponto forte dessa temporada e talvez de todo o desenho foi o episódio Primordios, voltando dez mil anos no tempo para nos mostrar o inicio do mundo e das civilizações.

f1053814f251ce0d59caaa17d40a6bf1Pode parecer imbecil separar uma parte no final do artigo só pra falar de um episódio mas esse realmente vale a pena, não só por ser ‘’separado’’ da história o suficiente para isso ser válido, como por nos responder muito sobre as origens daquele mundo e por fim, por ser uma verdadeira obra de arte.

Isso porque para ilustrar de que se tratava de algo muito antigo, escolheram um estilo de arte diferente para esse episódio, inspirado em pinturas antigas da Ásia, e o resultado disso é sensacional. Mas não é só pela arte que o episódio se sobressai, o próprio mundo é diferente o suficiente para se destacar como algo ‘’estranho’’.

905d71a592026c51fa8d42fc2290ba5eNessa época, os humanos viviam isolados em pequenas comunidades e não podiam sair para floresta sem ter autorização. Em uma dessas comunidades vivia Wan, que sendo explorado junto com o povo dentro da comunidade (provando que gente cuzona existe desde tempos imemoriais) foge dali e descobre que o mundo lá fora é infestado por espíritos… não muito amigáveis.

E essa inimizade entre humanos e espíritos me fez questionar: os humanos vivem isolados para se protegerem dos espíritos ou como forma de proteção aos espíritos?

Seja lá qual for a resposta, os humanos tinham uma forma de se defender ganhando temporariamente o poder de dobrar um dos elemento, um presente dado por nada mais nada menos que as Tartarugas Leão, que servem de abrigo e proteção para os humanos nessa época. Sempre houve um mistério em torno dessas criaturas ancestrais, mas não apenas isso, há uma certa mística em torno delas também.

ca07992f968147e18d277a8247ffa614Elas são muito mais do que meros animais exóticos antigos. Como o final de A Lenda de Aang deu a entender e esse episódio de Korra confirmou, elas são a verdadeira origem das dobras de elementos, possuindo a habilidade da dobra de energia que antecede todas as outras dobras, pois é o domínio não de um elemento ou outro, e sim da própria energia vital.

Como eu disse antes nesse artigo, ainda há muito mistério em torno da dobra de energia, só o que se sabe é que tal habilidade permite retirar ou dar o poder de dobrar elementos pra qualquer pessoa, mas será que por manipular a energia vital, é possível retirar a vida de outra pessoa ou do próprio dominador com tal habilidade? Talvez por isso seja tão restrito e  poucos já tiveram a oportunidade de usar.

De qualquer forma, na época de Wan existia uma Tartaruga Leão para cada elemento, e o da comunidade de Wan representava o elemento do fogo, que como eu disse era doado temporariamente para os humanos se defenderem dos espíritos… o que me faz questionar a motivação dessas tartarugas, pois existiam humanos ruins nessa própria comunidade, doar tal poder para eles não poderia ser perigoso? Não só para os espíritos mas também para a própria floresta?

Passar a vida protegendo humanos e doar um poder tão perigoso para eles, atitudes tão ”irracionais” talvez signifiquem amor incondicional das Tartarugas Leão para com os humanos É possível que isso queira dizer que as Tartarugas Leão são os criadores dos humanos, e os vê como filhos — ou talvez elas sejam uma espécie de guardiões colocados ali por um suposto ”criador” para proteger os humanos, quem sabe.

Mas enfim, fazendo um paralelo com a história de Prometeu que roubou o fogo dos deuses, Wan pega o poder da dobra de fogo sem intenção de devolver e sai perambulando pela floresta, tentando criar amizade com os raivosos espíritos que parecem terem bastante rancor dos humanos.

xtr1761Se você reparar, na maioria das histórias de origem do mundo existe uma falha terrível cometida por algum humano que provoca consequências graves para o mundo, e aqui não é diferente. Ao ver a eterna batalha da luz contra escuridão representada pelos espíritos Raava e Vaatu respectivamente, Wan é enganado pelo  espírito das trevas e o acaba libertando, causando um desequilíbrio no mundo que passa a ser lentamente dominado pela escuridão, corrompendo os espíritos no processo.

Para consertar o seu erro Wan viaja ao lado de Raava em busca das outras Tartarugas Leão, para assim aprender a dobrar os outros elementos e poder enfrentar Vaatu, que quer se aproveitar de um evento chamado ”Convergência Harmônica” para ter o mundo todo só para si. Durante a batalha, os espíritos de Wan e Raava se fundem, dando origem assim ao primeiro Avatar, que com o poder do primeiro Estado Avatar consegue selar Vaatu e criar a separação  natural entre o mundo espiritual e carnal, trazendo assim equilíbrio para o mundo.

Já repararam o quanto eu repeti a palavra ”equilíbrio” aqui nesse artigo? Pois é, não é atoa, o equilíbrio é um conceito que está presente desde o inicio do desenho, na sua própria concepção.

678Isso nos leva para o Taoísmo — talvez a mais significante de todas as inspirações filosóficas e religiosas de Avatar — que entre outras coisas, tem um grande foco na ‘’balança entre opostos’’, tanto que seu símbolo é o Yin-Yang, a representação universal do equilíbrio.

Esse conceito está na raiz de Avatar desde o inicio, e não só por exemplos explícitos como a relação do espírito da lua e do mar ou da eterna batalha entre Raava e Vaatu, mas também pelos próprios dramas pessoais dos personagens, como Aang tendo que equilibrar suas responsabilidades como Avatar  com sua infância, Zuko tendo que encarar de frente seus sentimentos negativos para enfim encontrar uma paz espiritual , e até mesmo Korra, que consegue no fim controlar sua natureza impulsiva e alcançar a serenidade que tanto precisava.

Em outras palavras, o equilíbrio é tão importante que pode ser considerado a ”filosofia” que move Avatar.

E isso é um dos motivos pelo qual eu amo tanto o episódio Primórdios ao ponto de reservar um espaço nesse artigo só pra ele. Além de todas as qualidades que já citei aqui, assisti-lo é como presenciar a própria origem do desenho, mas não só cronologicamente como conceitualmente também, sintetizando perfeitamente a importância do equilíbrio de uma forma, porque não, poética.

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Se os caras fossem acabar com a franquia Avatar e quisessem criar um episódio de despedida, Primórdios — mesmo ironicamente sendo um episódio de origem — seria o final perfeito.

Os espíritos devem parar de lutar contra humanos e voltar para sua casa no mundo espiritual. Eu vou ensinar ao homem a respeitar os espíritos para assim o equilíbrio ser mantido. 

Eu vou ser o elo entre os dois mundos. — Avatar Wan

Considerações finais

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Então é isso, bravos leitores que chegaram até aqui, vou chegando ao fim desse artigo pensando aqui como vai ser daqui pra frente, será que a continuação de Korra vai ser em uma era parecida com o mundo moderno atual, ou irão chutar o balde indo em direção de algo mais futurista? Seria interessante explorar como o aumento da tecnologia pode diminuir a importância do Avatar para o mundo, e mais do que isso… ver a galera lutando com artes marciais em um mundo cyberpunk seria sensacional.

De qualquer forma isso provavelmente vai demorar um pouco, mas enquanto esse dia não chega tem um monte de HQ oficial e canônica do universo de Avatar por ai, eu não li nenhuma ainda mas deve servir pra matar a saudade. Tem também uns jogos, mas sinceramente nenhum deles vale a pena, espero que lancem um jogo decente de Avatar também, um universo tão bacana e com tantas possibilidades ficar limitado a caça-níqueis feito com orçamento de pão com ovo é um PECADO.

Enquanto vou continuar sonhando com um jogo de luta 2D do Avatar aqui.

Volto no dia MIL!!!

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