A ausência de maniqueísmos em um épico do bem contra o mal

ATENÇÃO: Esse texto é de total autoria do blog Dentro da Chaminé. Você pode conferir essa e análises de outras séries aqui.

Avatar, the Last Airbender tem uma premissa bem simples: em um mundo formado por quatro nações, cada uma representando um elemento da natureza, o imperador da nação do fogo está em uma tentativa de dominar o mundo. E um herói lendário capaz de controlar os quatro elementos é o destinado a detê-lo, salvar o mundo e manter o equilíbrio entre as forças.

Muito tempo atrás, as quatro nações viviam juntas em harmonia, mas tudo mudou quando a nação do fogo atacou.

Uma história simples de bem versus mal. Temos um imperador tirano que ameaça o equilíbrio de todos os povos e um herói que carrega a esperança deles. E esse conflito culmina em uma guerra épica entre diversos exércitos e personagens divididos por suas afiliações ao lado-bom ou ao lado-mau. Bem simples. Mesma pegada de outros épicos de fantasia como Lord of the RingsHarry Potter ou Star Wars.

Com uma diferença: ao contrário das três obras acima citadas, Avatar não é uma obra maniqueísta.

O bem e o mal, a linha que separa os dois é muito clara.

Aliás, já adianto que Lord of the RingsHarry Potter e Star Wars foram friamente selecionados para ser base de comparação para o artigo, com base no fato de serem sagas grandes envolvendo guerras épicas do bem contra o mal em mundos fantasiosos, além de serem muito conhecidas e servirem como referências narrativas em seus gêneros. Obras marcantes que, ao serem publicadas, mudaram tudo.

Ao longo do texto vou constantemente apontar como Avatar não cai em recursos que essas obras usam, mas enalteço que usar artifícios maniqueístas não é demérito em nenhuma dessas três obras – talvez seja em Harry Potter, mas isso não é importante agora.

O importante é que essas três histórias giram muito em torno não só do bem e do mal, mas do conceito de forças do bem e forças do mal. Sauron criou um anel de natureza maligna que corrompe corações e usá-lo para o bem não é uma opção, ele só pode ser usado para o mal ou ser destruído. Voldemort domina as magias que são tabu em Harry Potter, as artes das trevas. Ele usa as maldições imperdoáveis que um bruxo de bem jamais usaria. Palpatine é um mestre no lado negro da força, e as usa para corromper jovens com talento na força a usar o lado mais nefasto desse poder.

Este anel tem inscrições em uma lingua maligna que Gandalf se recusa a pronunciar, por ser um afiliado as forças do bem.

E é justamente aí que está o grande destaque de The Last Airbender, embora o mundo tenha forças fantásticas usadas pelos personagens e tenha uma noção de “pessoas boas” e “pessoas más”, ele não trabalha com o conceito de “poderes bons” e “poderes maus”. Além disso, coloca muitos personagens em posições de meio termo no que se refere ao que é uma pessoa boa e uma pessoa má.

Katara e Toph, ambas protagonistas, na prisão por agirem como golpistas. O episódio nunca critica os golpes aplicados para roubar dinheiro no aspecto moral, somente critica o fato delas arriscarem serem presas.

O vilão central é o Senhor do Fogo Ozai. O ele é o líder político e militar da Nação do Fogo, a mais desenvolvida tecnicamente de todas suas nações, e conduz sua nação em uma guerra que não foi ele quem começou, e sim seu avô, um século antes da história começar. Sob a justificativa de dividir seu progresso com o mundo, o avô de Ozai decidiu invadir e agregar territórios de outras nações à nação do fogo, formando colônias, e começou uma guerra por domínio mundial.

Porém, a nação do fogo não é má. O avô de Ozai foi um homem cruel e com ambições de poder perigosas. Ozai é um homem semelhantemente ambicioso e louco. Eles são pessoas horríveis, mas a nação em si não é maligna. Eles só são um povo, como qualquer outro, porém em guerra.

Jovens da nação do fogo dançando em uma festa.

E é justamente isso que quero refletir nesse texto. Ozai é um imperador maligno, um vilão clássico. E Aang é um herói clássico. Já é anunciado no primeiro episódio que Aang deverá derrotar Ozai para salvar o mundo. A trama do herói contra o vilão e do homem bom lutando contra o homem mau está lá. Mas o mundo que os rodeia, e a perspectiva da série, seus personagens, seus poderes, e todos os conceitos que ela trabalha, negam a existência de uma visão “branco e preto” e desassociam ao máximo o conflito do mundo e a guerra como uma mera questão de bem versus mal.

E isso é um dos diversos pontos que tornam a série genial. Em uma visão pouco cínica, e sem a necessidade de transformar cada personagem em um anti-herói, e mantendo a narrativa clássica da jornada do herói, a série ainda assim consegue mostrar que a linha que divide o bem e o mal é cheia de nuances relativas. É uma divisão dificílima de traçar.

Vamos ver alguns pontos da série:

FOGO É UM ELEMENTO MALIGNO?

No mundo de Avatar existem cinco tipos de pessoas. As capazes de manipular a água, o ar, a terra ou o fogo, e as incapazes de manipular qualquer elemento da natureza. Ao mesmo tempo, existem quatro nações no mundo inteiro. As Tribos da Água, os Nômades do Ar, o Reino da Terra e a Nação do Fogo. E não preciso dizer que os personagens capazes de manipular os elementos da natureza vivem na nação que é nomeada pelo elemento que dominam.

Da esquerda pra direita. Ar. Água. Terra e Fogo.

Sendo assim, a Nação do Fogo é a nação-vilã da série. Ozai é o Senhor do Fogo, e é de lá que virá a maioria dos vilões. E isso faz sentido, não faz? Água, terra e ar são elementos da vida, que nos remetem à parte pacífica da natureza. O fogo destrói. O fogo é perigoso, selvagem, indomável. O fogo só pode ser maligno.

Ozai em sua primeira aparição.

E essa é uma perspectiva que muitos personagens têm. Cicatrizados emocionalmente e às vezes fisicamente pelas ações de Ozai e seu exército, eles associam fogo a algo maléfico. Mas a série faz questão de mostrar que não.

Uma garota presume que por sua cicatriz, Zuko é uma vítima da nação do fogo, e mostra as proprias cicatrizes pra ele. Sem saber da real afiliação do rapaz, na época.

Aang como personificação do equilíbrio no mundo deve aprender a manipular os quatro elementos simultaneamente antes de estar pronto para lutar com Ozai. E isso significa que ele terá que aprender a dominar o fogo. Ele encontra um mestre para ensiná-lo, chamado Jeong-Jeong. Este mestre ensinava a dobra de fogo para os militares da nação do fogo, mas se decepcionou com a mentalidade destrutiva, selvagem e indiciplinada com que seus alunos colocavam a técnica durante a guerra. Cansado, ele se tornou um desertor, abandonou a nação e jurou jamais ensinar a dobra de fogo novamente.

Até que Aang, em sua condição de Avatar, implora para aprender dele a sua técnica. Jeong-Jeong hesita, mas dá o beneficio da dúvida, pois se trata do Avatar. Durante as lições, Aang não foi disciplinado o suficiente para controlar o fogo de maneira responsável e acidentalmente queimou Katara, seu interesse amoroso. Jeong-Jeong interrompeu as lições e Aang, assustado com o mal que causou, decidiu não usar a técnica nunca mais.

Um incidente feito para firmar na cabeça dos personagens que o fogo deveria ser temido.

“Água traz vida e cura, enquanto fogo traz somente destruição e dor.”

Porém Aang eventualmente teve que tentar aprender de novo a técnica. Ele foi treinado pelo seu antigo inimigo, Zuko, que, sendo um ex-vilão, sempre usou uma mentalidade agressiva para dominar o fogo, e agora, em paz de espirito, perdeu a habilidade de produzir o fogo.

Os dois partem em uma jornada, Aang para aprender a técnica e Zuko para reaprendê-la, e eles conseguem isso no templo de antigos mestres da dobra de fogo, os Guerreiros do Sol. Tais guerreiros apresentam aos personagens dois dragões que ensinam uma perspectiva diferente da técnica do que a noção bélica que a nação vilã militarizada tanto pregou. O fogo como fonte de energia, o fogo como vida, como o sol. O fogo sendo belo. Aang e Zuko descobriram que eles moldaram a imagem da técnica com base na imagem dos vilões, mas a técnica não é má. Existe muita harmonia e beleza nela.

Logo, diferente do anel que, sendo a fonte do poder de Sauron, jamais poderia ser usado para o bem, o fogo era justamente uma das quatro armas que derrotariam Ozai.

O PRÍNCIPE ZUKO:

Zuko se vendo em um sonho. O dragão azul o aconselha com a voz de Azula, e o dragão vermelho o aconselha com a voz de Iroh.

Olha, sou um grande fã de personagens complexos. Geralmente é um dos pontos nos quais mais me foco ao pensar em uma obra. E poucos me fizeram tirar tanto o chapéu para seu desenvolvimento quanto o Príncipe Zuko, deuteragonista da série, que se firma no primeiro episódio como arqui-inimigo de Aang e no último episódio como seu melhor amigo. E todos os episódios entre esses dois são sobre sua gradual, complicada e conflituosa transição do lado mau ao lado bom.

A marca central de Zuko é sua dualidade entre o bem e o mal. Ele passa a série inteira transitando na área intermediaria entre os dois conceitos. Já fez muita boa ação por maus motivos. E muita má ação por bons motivos. E também fez muita boa ação por bons motivos e muita má ação por maus motivos. Ele transitou o espectro inteiro, sendo um bom exemplo do quão não absolutos são os valores de bem e de mal na série.

Disfarçado de Espirito Azul, Zuko salva a vida de Aang. Pois se outra pessoa matar Aang, ele jamais restaurará sua honra.

Zuko é o filho mais velho de Ozai. Príncipe da Nação do Fogo e herdeiro do trono. Apesar de ser de uma linhagem notória e pródiga, jamais exibiu grande talento em dobra de fogo e, por isso, jamais foi respeitado pelo pai. Um dia, em uma reunião militar que ele teve permissão de assistir, Zuko deu uma opinião que ofendeu um general, e Ozai puniu seu filho queimando seu rosto.

Não só queimou o rosto do filho, como o fez publicamente.

Ozai é um tirano que jamais amou o filho, e resolveu discipliná-lo com dureza. Pelo crime de “falar fora de hora e não conhecer o próprio lugar.”, Zuko foi banido da Nação do Fogo, e só poderia recuperar sua honra e seu lugar se capturasse o Avatar e o entregasse ao seu pai.

Zuko passou o começo da série sendo motivado pela sua raiva e vergonha. Vergonha por ter sido exilado, por ter tido sua honra tirada, por sentir que precisa de perdão e redenção de seu pai. E raiva do Avatar, que é a figura que se mantém entre ele e seu status desejado.

Zuko cresceu acreditando que a Nação do Fogo era a maior nação do mundo, e que a guerra era uma justificativa para dividir o progresso com as demais. Ele era uma criança idealista criado por uma mãe de bom coração que o ensinou a ser primariamente  uma pessoa boa. Porém, ele acreditava que tinha que ser leal aos seus laços familiares e patriotas, e que isso era ser bom. Uma vez exilado, testemunhou em primeira mão como a Nação do Fogo foi cruel e teve impacto negativo na vida dos povos das outras nações. Ele era acompanhado pelo seu tio, que, assim como Zuko, já esteve dos dois lados. O tio de Zuko, Iroh, era um general de respeito da Nação do Fogo, que após perder o filho na guerra, repensou as ações de sua nação e decidiu se tornar um pacifista e lutar discretamente pelo fim da tirania. Como mentor do sobrinho, ele nunca mandou Zuko ser contra seu pai ou seu país, mas sempre o aconselhou a tomar essa decisão sozinho.

Iroh dando conselhos de sabedoria para Zuko, teimoso e preso demais em sua vergonha para dar ouvidos.

Mas não é uma decisão fácil, abdicar daquilo que você sempre sonhou, por ética. Para Zuko o respeito e a aceitação do pai eram importantíssimos. Ele sempre se sentiu diminuído pelo mundo. Nunca teve privilégios apesar de sua posição na família real. Um de seus grandes momentos é quando explica para Aang o quanto ele o despreza, por ser o Avatar, e por ser capaz de fazer as pessoas confiarem e terem esperança nele. Ele comparou Aang com Azula, sua irmã. “Meu pai disse que ela nasceu com sorte, e que minha sorte foi nascer. Mas eu não preciso de sorte. Tudo o que tenho eu obtive com meu esforço, e isso faz de mim quem eu sou.”. Para Zuko ser finalmente incluído e sentir que existe um lugar no mundo onde ele seja aceito era fundamental. Sentir que ele não era destinado a apanhar do mundo a vida toda.

Após aprender a técnica de se defender de um raio. Zuko grita aos céus “Você sempre atirou tudo que pode em mim, e eu aguento e agora posso devolver. Vamos, me atinja! Você nunca se conteve antes!”

Por isso que mesmo tendo sido considerado um traidor, mesmo que Ozai tenha mandado sua irmã mais nova –  Princesa Azula – assassiná-lo, e mesmo tendo uma chance real de se aliar a Aang e triunfar na vida, quando ele tem a chance de se redimir, de escolher entre se aliar a Aang ou capturá-lo, ele escolhe trair seu tio no processo, derrotar Aang e retomar seu lugar. Tamanha era a vontade de recuperar o que perdeu.

Iroh desvia o olhar do seu sobrinho, após ser capturado por ele.

Ou seja, ele era mau? Não, ele era confuso pra caralho. Ele sonhava com essa vida de honra e aceitação que achou que tinha perdido, mas a verdade é que de certa forma ele jamais a teve, e isso é algo que ele não tinha perspectiva para ver. Ele precisou ser aceito por Ozai e retomar seu lugar para notar que nada daquilo tinha valor. Ser o príncipe no palácio, algo que ele sempre almejou, soava como algo vazio. E a vergonha, por ter traído o próprio tio que sempre o apoiou e aconselhou, era alta. Então ele decide trair o pai abertamente, discursando como o pai era um monstro, e se tornar o mestre de dobra do fogo de Aang.

Zuko decide que vai aliar-se ao Avatar e ajudar a acabar com a guerra.

Mas Zuko demorou a ser perdoado por Aang, pois a associação à imagem dele ainda era a de vilão. Ele precisou ganhar a confiança e o respeito de Aang, para eventualmente, conseguir reencontrar o tio, ter a sua honra restaurada por este, desempenhar papel de vital importância para a derrota de Ozai e o fim da guerra, e subir no trono, como um Senhor do Fogo de paz e decência.

“Ele começou a falar da mãe dele e começou a parecer um ser humano com sentimentos […] eu senti pena dele, senti que ele estava realmente confuso e ferido. Mas obviamente quando a hora chegou ele fez a escolha dele e nós pagamos o preço. Não podemos confiar nele.”

A dualidade de Zuko de passar mais de metade da série não sabendo decidir seu lado é constantemente expressa em sua cicatriz de queimadura, sua marca mais notável. Ozai queimou seu rosto quando este o desonrou, e seu rosto ficou marcado pra sempre. A queimadura lembrava-o da vergonha que era ter perdido a aceitação do pai, e tornava-o intimidador. Mas também o tornava frágil, o lembrava de como seu pai era cruel e desprezível. A queimadura cobre boa parte do lado esquerdo do rosto de Zuko, e visualmente funciona que nem o Two-Faces do Batman. Ele tem dois rostos, pois vive oscilando entre dois lados.

Em histórias sobre forças do bem e do mal, não é incomum ter um personagem que transite entre os dois lados. Gollum (cuja dualidade era mais um caso de dupla personalidade. Tendo literalmente um lado bom e um ruim em si.), Severus Snape e Anakin Skywalker sendo bons exemplos. Um lado interessante da transição do Zuko é que, mesmo do lado bom, ele jamais esquece de seu passado. Ele passará a vida inteira arrependido de tudo o que fez, lembrando-se com vergonha e encontrando pessoas com rancor dele. Ele não é mais do lado mal, mas aquela pessoa que ele foi ainda é ele, por isso como por tudo que ele obteve na vida, ele tem que lutar para merecer o perdão.

Snape foi perdoado por Harry. E Darth Vader foi perdoado por Luke. Mas não foi o perdão de Aang ou de seu Iroh que simbolizou que Zuko era um dos heróis. Ele restaurou a própria honra e mesmo quando Aang não o aceitou de volta, ele já havia se provado um herói independente de ter sido perdoado ou não.

A HUMANIZAÇÃO DOS VILÕES

Ozai teve seu rosto escondido até a última temporada de Avatar, e quando seu rosto foi finalmente revelado ele era… tão normal. Tinha as roupas de um imperador naturalmente, mas ele tinha um corte de cabelo comum, barba e uma aparência que poderia ser dado a qualquer outro personagem bom ou mal que pertencesse à Nação do Fogo.

O rosto de Ozai revelado pela primeira vez.

Histórias de fantasia gostam de construir um argumento ao distorcer a forma dos personagens que se associam ao lado maligno, como uma prova do poder de corrupção que esse lado tem. Voldemort, ao dividir sua alma em sete buscando a imortalidade, terminou parecendo uma serpente sem nariz, decadente visualmente. Palpatine, ao usar o poder do lado negro da força (aqueles raios azuis), tem seu rosto deformado em troca. Sauron se manifesta primariamente sob a forma de um olho em chamas após ter sido destruído no passado. Nenhum deles surge para os heróis parecendo um ser humano, pois a maldade os desumanizou. Mesmo em vilões secundários, como o Gollum, deformado pela corrupção do anel, ou Darth Vader, queimado e desfigurado dentro da sua armadura.

O uso de Magia Negra não foi bom para a aparência do jovem Tom.

Em um episódio em que Zuko oferece a casa de praia de sua família para Aang e seus aliados usarem como base, Katara encontra um desenho do que ela acredita ser Zuko bebê e resolve ir zoar o amigo, mas Zuko responde que o desenho era do Ozai, e todos se surpreendem ao ver que o Imperador Maligno um dia foi um bebê normal.

Não importa o quão cruéis e pérfidos os personagens de Avatar sejam, eles são pessoas. Seres humanos com falhas humanas, como ganância, ambição, entre outros. E sua maldade não os marca fisicamente.

Embora quando eles eram inimigos, Katara tenha tratado Zuko como se seu rosto fosse um símbolo de sua maldade, sem notar o quanto esse comentário ofendia o rapaz.

Os vilões de Avatar, não só Ozai e Zuko, mas Azula, Zhao e Long Fei, todos têm histórias criveis que os colocam em um contexto, onde podemos entender de onde veio a linha de ação deles. Não sabemos o que os tornou malignos em especifico, mas é muito fácil estipular, dado a cultura, perspectiva e condições de vida em que esses personagens cresceram. Inclusive, Azula faz uma cruel leitura de como Long Fei se tornou um vilão ao derrotá-lo, humilhando-o no processo, remarcando como a sua origem não o torna digno.

“Eu posso ver toda sua história nos seus olhos. Você nasceu sem nada. Teve que lutar e ser esperto e conquistar seu caminho ao poder. Mas o verdadeiro poder, o direito divino de reinar, é algo com o qual você nasce.”

Tem esse episódio em que Zuko, após se aliar a Aang, resolve provar sua redenção à Katara, ajudando-a a rastrear o soldado da nação do fogo que matou a mãe da menina. Ela rastreia e o encontra disposto a matá-lo para se vingar. Quando ele matou a mãe de Katara, o fez por crueldade. Ela se ofereceu como prisioneira acreditando que sua prisão pouparia vidas na batalha, e ele se recusou a tomar prisioneiros e a matou no lugar.

Anos depois, ele está aposentado, cuidando de uma horta e morando com sua mãe idosa. Sua mãe é cruel com ele, e o humilha a cada oportunidade, e ele é infeliz e patético. E então enquanto fazia compras no mercado ele é encontrado por Katara. Ao ver que ele finalmente teria que pagar pelas suas ações no exército, ele implora para Katara por sua vida, propondo aela que mate a sua mãe abusiva e isso os deixaria quites.

Katara então decide poupar o assassino de sua mãe. Ela o vê pelo que ele é, uma pessoa vazia, um cara que não tem nada dentro de si, triste e patético. Um covarde capaz de qualquer coisa para sobreviver. Uma péssima pessoa. Ela o despreza mais que tudo, mas viu um grande contraste em relação ao monstro do qual ela se lembrava.

Mas não são só os vilões que são humanizados.

A HUMANIZAÇÃO DOS EXERCITOS

The Last Airbender conta a história de uma guerra. Temos, claro, um time de cinco protagonistas, todos preparados na arte do combate, e um vilão com um grupo pequeno de capangas principais igualmente treinados, o que torna óbvio que esses personagens nomeados vão lutar entre si, pois nos importamos muito com eles. Ainda assim, é uma guerra de proporções globais, e essa guerra é travada por exércitos.

Mas, que tipo de exércitos? O de praxe nessa hora é aproveitar que o mundo é fantasioso e criar uma raça de seres minimamente inteligentes para não serem tratados como meros animais, mas cuja afiliação ao mal é inata à sua raça. Isso torna o conflito com os personagens que são bucha de canhão mais simples e fácil. Se vir que é um Klingon, já pode ser hostil, pois você já sabe que é vilão. Orcs? Mesma coisa. Dementadores? Idem.

Nenhum deles é gente como nossos heróis, então nenhum presta. Fácil de distinguir aliado de inimigo na hora do combate.

Mesmo quando o exercito afiliado ao mal é um exercito de humanos, eles ainda assim costumam não ter absolutamente nada de redentor por parte deles. São pessoas sem moral que apoiam um vilão desprezível, e nada bom pode sair dali. Todo mundo que vestiu o uniforme do stormtrooper mereceu morrer na explosão da estrela da morte, pois é assim que vilania funciona.

Antes da batalha final começar, vamos só por precaução trancar todos os alunos Slytherins no calabouço, já que todos são neo-nazistas.

O exército da nação do fogo é formado em geral por patriotas. Pessoas que cresceram e foram educadas acreditando que a guerra é algo que vai fortalecer a nação. E embora isso os posicione como antagonistas na série, não os coloca na lista de “gente sem alma”. Os soldados da nação do fogo, sempre que têm um dialogo entre si, servem para mostrar que eles são todos pessoas por trás daqueles uniformes, têm sonhos de vida, têm família, entes queridos, esperanças de um mundo melhor, e em geral são gente como gente das outras nações, exceto por separações ideológicas.

Um soldado fica feliz ao achar (equivocadamente) que o capitão de seu zepellin lembrou de seu aniversário.

Muitos episódios mostram que os membros da nação do fogo são pessoas comuns. Em um, Sokka, aliado de Aang, impede Jet, anti-herói, de matar toda uma vila da nação do fogo, sob a justificativa de que ia matar muita gente que não tinha nada a ver com isso. Ou seja, o ódio de Jet à nação do fogo estava mal direcionado.

Não só isso, como a série não idealiza o exército do bem para mostrar que ele é mais digno. A força militar das Tribos da Água, por exemplo, faz questão de proibir mulheres de se alistarem. Na guerra mulheres usam a dobra de água para tratar de feridas e homens a usam para o combate. E isso ofendia Katara, que era uma guerreira. O exército da Terra não abordou esse ponto, mas é notável que jamais apareceu uma mulher lutando em suas fileiras.

Mestre Pakku se recusa a ensinar dobra de água para Katara.

E o exército do fogo? É cheio de mulheres. Pois a Nação do Fogo é uma nação pouco machista em que mulheres não são descriminadas pelo seu gênero. É só ver que Ozai sempre acreditou que Azula é quem carregaria seu legado e não Zuko, mesmo Azula sendo a mais nova e uma garota.

Mostrar que existe machismo entre os heróis e não entre os vilões não éalgo colocado ali para dizer que a separação sexista é algo “do bem”, e sim para mostrar como tem pessoas que estão do lado certo em algumas situações, mas em outra situação estão erradas e vice-versa.

Em contextos em que podemos ver soldados da nação do fogo descontraindo, eles são pessoas normais. Assim como os soldados das outras nações, que não acompanhamos muito. Aliás, os soldados mais desumanizados de todos, são a Dai-Li, que justamente são a policia secreta do Reino da Terra. Todos sem identidade e super pragmáticos, eles só aparecem para seguir à risca os interesses de seu líder militar. Mas a série deixa claro que a Dai-Li é uma exceção. Uma exceção tão notável, que Azula articula para que lutem pela nação do fogo, sabendo do diferencial que soldados com a mentalidade deles fazem em uma guerra.

The Last Airbender trabalhou a batalha contra a nação do fogo realisticamente, com implicações politicas sendo derivadas da guerra. É estabelecido que nem Zuko nem Iroh poderiam matar Ozai, pois isso não soaria como o fim da guerra. Soaria como o um golpe de Estado para um membro da família real atingir o poder, e que Aang estava destinado a lutar com Ozai, pois seu status de Avatar dava a ele a autoridade de figura neutra para depor o tirano.

E quando eles lutam, é excelente. Uma grande batalha épica pelo destino do mundo como era de se esperar. Aang sendo o homem puro que é, se recusa a matar Ozai, mas retira seu poder, tanto a dobra de fogo quanto seus títulos, e ele é preso pelo novo Senhor do Fogo, Zuko.

Mantendo ainda o não-maniqueismo, existe uma história em quadrinhos chamada The Promise, onde Aang e Zuko começam um projeto de descolonizar os territórios invadidos pela nação do fogo na Guerra, e descobrem uma colônia criada faz um século, a primeira colônia de toda a guerra. Onde a cultura da Nação do Fogo e do Reino da Terra já estava tão misturada que o povo não se sentia mais como membro de nenhuma das nações, e depois de um século, os descendentes dos colonizadores sentiam que suas raízes estavam naquela terra e se recusavam a voltar para a nação do fogo. A cidade levanta um tema complicado sobre como proceder com a descolozinação, e Aang e Zuko discordam.

Porém o status de Aang como avatar e de Zuko como ex-vilão, fazem o próprio Zuko questionar se ele tem o direito de discordar da visão política de Aang nesse ponto, e se ele podia estar errado. Mas a visão de Aang sobre como proceder com a colônia não estava mais certa por ele ser o Avatar. Era questão de política, não havia bem e mal no debate.

The Last Airbender durou três temporadas. Gastou todas abordando a guerra, e ao final amarrou todas suas pontas soltas e se firmou como um dos desenhos animados ocidentais de mais prestigio da história da televisão norte-americana.

Tanto que a Nickelodeon resolveu que era uma boa ideia fazer uma sequência.

 

Você pode gostar...