Representação da saúde mental em “Avatar”

Apesar de ambas séries mostrarem a luta, só um foi criticado pelo modo como representou essa luta.

Quando a Lenda de Korra foi ao ar em 2012, ela tinha grandes responsabilidades a cumprir. Seu antecessor, Avatar: A Lenda de Aang foi um dos shows de maior sucesso da Nickelodeon. A lenda de Aang revolucionou o gênero de fantasia com pequenas amostras de outros gêneros em vez de se manter nos clichês tradicionais e foi além do que os shows infantis normalmente faziam. Os personagens eram bem desenvolvidos e cresciam durante a série. Um desses personagens, Zuko, começou muito odiado na série mas na terceira temporada era um dos personagens dos quais mais os fãs sentiam pena. Toph, que só aparece na série na segunda temporada, é muito amada. Os criadores foram capazes de fazer muito no desenho em um espaço de tempo muito curto.

O grande conflito dentro da animação é que Aang precisava dominar todos os quatro elementos e derrotar o Senhor do Fogo para impedir que a Nação do Fogo dominasse o mundo. A Nação do Fogo está em guerra com o resto da humanidade e os criadores, Bryan Konietzko and Mike DiMartino, não deixam de lado todos os horrores dessa guerra. Em uma cena, Aang acha o corpo de Gyatso, seu velho amigo e professor, juntamente com os corpos dos soldados da Nação do Fogo que o mataram.

A reação de Aang não é diminuída para ser “mais apropriada para crianças”. Chateado é pouco, Aang está devastado. Ele não consegue se controlar e quase destrói todo o templo no processo. A única razão pela qual ele é capaz de se acalmar é através do conforto de sua amiga, Katara.

Guerra não é o único tema maduro que “Avatar” aborda. Também são abordados o sacrifício, a destruição da natureza, a escolha de seu destino, mentiras e opressão só para citar alguns. Existe certa controvérsia sobre ele ser considerado um desenho para crianças, porém é normalmente dito como para todas as idades.

A pertinência de “A Lenda de Korra”, o “sucessor de Avatar”, é bastante debatido. Apesar de ter sido originalmente rotulado como um show infantil, sua classificação indicativa foi trocada durante o lançamento da terceira temporada. Esse fator, juntamente com os níveis de audiência, fizeram com que o show fosse exibido estritamente em plataformas online em vez de ser exibido somente na televisão. Então o que faz “A Lenda de Korra” mais controverso que “Avatar”?

Aang, além de seu colapso mental no templo do ar, foi resiliente durante toda a série e sábio muito além de sua idade.

É importante tirar sabedoria de diferentes lugares. Se a tirarmos de um único lugar, ela se torna rígida e estagnada. Entender os outros, os outros elementos e as outras nações te ajudará a se tornar completo. É a combinação dos quatro elementos em uma pessoa que faz do Avatar tão poderoso. Livro dois: Trabalho amargo.

Ele tinha seus problemas, claro, mas ele sempre conseguia se reerguer. Korra, entretanto, não consegue se reerguer logo. Apesar de não ser explicitamente dito, é comumente pensado que ela lutava contra Síndrome de Estresse Pós-Traumático. Ela experiencia todos os sintomas de SEPT: pesadelos, flashbacks, sobressaltos e afastamento. Esses sintomas persistiram por três anos e não haviam sinais de que eles parariam.

Porém nós não só vemos ela experimentar esses sintomas, mas também é mostrado as suas tentativas de superar os sintomas. Ela se isolou daqueles que amava por três anos sendo que a única pessoa com quem ela mantinha contato era Asami. Ela evita lidar com seus problemas tentando fugir deles. A questão não é que ela está tentando superar, e sim que ela tem problemas para fazer isso.

A luta de Korra é uma representação muito real e com a qual as pessoas podem se relacionar. Aang tinha suas lutas, mas não são muitas pessoas que conseguem se relacionar com genocídio. O índice de existência da Síndrome de Estresse Pós-Traumático em adultos americanos é de cerca de 6.8 porcento. Apesar de seus altos índices de prevalência, ainda há muitos estigmas relacionados à saúde mental. É senso comum de que genocídio é moralmente errado, por isso é considerado adequado para todas as idades assistirem, porém, o que é a saúde mental e como isso é tratado é extremamente controverso.

O motivo pelo qual falar sobre saúde mental é considerado tabu é por conta do estigma (visões estereotipadas) envolvido, como o de que pessoas mentalmente doentes são violentas e perigosas. Mostrar isso de uma forma tão crua atraí muita atenção. Não é típico de um “show de crianças” fazer isso porque nem sequer é uma questão comumente discutida. Não é só fora do comum para programas infantis, mas para shows no geral. Doenças mentais são tipicamente mal representadas na mídia e se alimenta de todos os estigmas que cercam o tópico. Com essa reafirmação de que o estigma é o correto e sendo difundido em uma plataforma de grande alcance, é difícil não acreditar no estigma. E, já que o estigma é a forma mais popularmente aceita, qualquer coisa que vá contra ele pode ser controverso e inaceitável.

Já que essa representação não é baseada no estigma de saúde mental, ele desafia a veracidade do estigma e também o que era popularmente aceito como verdade. “Avatar” foi além de um “show de crianças”. Os questionamentos trazidos pela série é o que deveria ser exibido em um programa para crianças. “Korra” foi além disso. No lugar de questionar o que poderia ser conteúdo de um show infantil, a série simplesmente definiu seus próprios limites. Foi acima e além, porém, isso fez dele ainda mais real e com o qual os fãs conseguem simpatizar mais. Se pode ser tão simpatizado, faz com que a audiência questione a realidade. Como pode ser algo fantástico mas ao mesmo tempo tão real? Essa capacidade de criar algo com o qual os fãs possam se relacionar traz controvérsia já que aceitar a realidade pelo que ela é não é algo que qualquer um possa fazer completamente ou até mesmo começar a compreender.

Artigo por Caitlin Zarzeczny
Traduzido por Maria Clara Monteiro

Como a Lenda de Korra melhorou a minha saúde mental

Ao contrário de “Avatar: A Lenda de Aang”, “A Lenda de Korra” foi feita para um público mais maduro. Korra sendo mais velha que Aang, lutou contra traições, tomou decisões difíceis, mudou para sempre o mundo espiritual e físico e depois foi torturada e teve um quadro de estresse pós-traumático próximo do fim da série. A luta de Korra para recuperar sua saúde mental me ajudou durante minha própria depressão e traumas.

Assisti pela primeira vez o quarto livro da série logo depois de algo bastante traumático ter acontecido comigo. Tive um relacionamento conturbado com um membro da família, e esse evento me fez perceber a severidade da situação. Tudo aconteceu em menos de dois meses depois da estreia do livro quatro. Mantive o ocorrido em segredo por meses. Logo depois do lançamento decidi contar a um dos meus amigos mais próximos. Então, cinco meses depois decidi contar aos meus pais.

A série me ajudou a entender que é bom pedir ajuda. Tenho lutado contra a depressão por anos, mesmo antes do ocorrido e de pedir ajuda. Mas mesmo assim sentia-me frustrada por ainda estar lutando contra a depressão, mais o fardo que carregava junto com tudo isso. Estava frustrada comigo e me sentia fraca e estúpida. Ver Korra lutando contra o estresse pós-traumático e outras lesões físicas me fez entender que faz parte continuar na luta. Sempre vi Korra como sendo forte e confiante, e foi de grande ajuda vê-la batalhando para voltar ao que era, assim como eu.

Um dos momentos mais gratificantes foi quando Toph estava ajudando Korra durante seu processo de cura. Mesmo Toph sendo dura, ela ajudou Korra e me fez entender que precisamos enfrentar nossos medos e de que precisamos derrotar o inimigo atual para partir para o próximo. Depois de pensar nisso por um tempo, entendi que ela estava me dizendo que eu deveria cuidar das minhas próprias batalhas antes de partir para as próximas.

Estava batalhando contra minha depressão entre outros problemas de saúde, mas agora estou trabalhando neles ao invés de evita-los. “A Lenda de Korra” me ajudou a perceber isso, que não posso ignorar mais a situação. Estou indo bem melhor agora do que há alguns anos atrás. Não sei se algum dia estarei completamente curada do que aconteceu ou da minha depressão, mas sei que não posso deixar nada disso me fazer parar de seguir em frente.

Artigo por Emily Jean
Traduzido por Lucian Guilherme

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