Escritor de “Avatar” e diretor de “Uncharted” constroem novo jogo e série

A dupla deixou a Riot Games para tentar algo novo.

Para Aaron Ehasz como um menino de 11 anos de idade, as manhãs de sábado eram definidas por mundos místicos de heróis de ação e robôs gigantes, e poucos captaram esse senso de deslumbre mais que a Robotech de 1985. Com um grande senso de escala e longitude, evolução emocional de personagens, a série animada marcou ele. Mesmo depois de devorar cada minuto da série Ehasz sabia que queria continuar explorando seu mundo, e ficou de coração partido quando descobriu que brinquedos e outros produtos não eram achados com facilidade. Para um menor de idade determinado, isso era insuportável.

“Eu literalmente assistia os créditos para adivinhar quem eram os produtores, e então eu tentava ligar pra eles,” diz Ehasz. “Eu era uma criança ligando da California. ‘Ei, onde posso conseguir esses brinquedos?’ Nossos amigos começavam a falar sobre rumores. ‘Oh, os brinquedos estarão disponíveis ali se você conseguir fazer sua mãe te levar,’ e não tinha nada. Eu estava definitivamente ciente da falta dessa parte da franquia quando criança.”

Para Ehasz, que começou sua carreira de escritor em Futurama e rapidamente escalou para a posição de escritor chefe em Avatar: a Lenda de Aang da Nickelodeon, era fácil se perder no efêmero de seus programas e filmes preferidos – mesmo que, em alguns casos, ele tivesse que fazer o próprio.

Aaron Ehasz (esquerda) e Justin Richmond (direita)

Agora esse amor por explorar universos inventados é o que Ehasz e o colaborador Justin Richmond esperam levar com eles como co-fundadores de um novo estúdio chamado Wonderstorm, com o objetivo de criar jogos e mídias expandidas simultaneamente (junto com co-fundador Justin Santistevan, antigo chefe de finanças para pesquisa e desenvolvimento na Riot, e investimento da Madison Wells Media). Juntamente com o novo jogo, que eles estão mantendo por baixo dos panos por enquanto, o time da Wonderstorm (consideravelmente menor que o da Naighty Dog ou da Riot Games) está trabalhando com a Netflix para produzir uma animação original que se passa no mesmo mundo do jogo.

Richmond, que liderou o desenvolvimento de Uncharted 2 multiplayer e subsequentemente dirigiu Uncharted 3, conheceu Ehasz enquanto ambos trabalhavam na Riot Games, o estúdio por traz do massivamente popular League of Legends.

“Ainda que eu tenha trabalhado em um número de séries em minha carreira, Avatar: a Lenda de Aang e Futurama são os dois que tiveram algum tipo de faísca de magia que ressonou com uma audiência, continua a ressonar por mais tempo do que jamais esperaríamos, e é onde você se sente como se tivesse feito algo significante,” diz Ehasz. “Você começa a se perguntar ‘qual a diferença entre as produções nas quais trabalhamos que foram mágicas, que significam algo, e as que eram ótimas mas não tinham essa mágica?'”

Cumprir essa promessa pode ser uma tarefa difícil sem ter algum senso de autenticidade e esforço nos quais os fãs possam se agarrar, de acordo com Richmond.

O time da Wonderstorm espera evitar as armadilhas que afetaram produções como Quantum Break, que dividia a história do jogo entre quatro episódios em live-action intercalados com a intenção de clarificar seu elenco. No entanto que seus resultados positivos no geral, críticos notaram que a narrativa não foi coesamente impecável graças a um senso de desconexão entre o jogo e a série.

Ao invés de jorrar filosofias em fandoms e na construção de mundos, Ehasz e Richmond estão tentando integrar suas propostas diariamente no trabalho do estúdio.

Enquanto você brincava com coisas de Star Wars, quantas vezes Luke, o Imperador e um ewok tiveram uma louca aventura?

“Escritores e artistas estão literalmente trabalhando lado a lado com designers e engenheiros, e estamos todos engajados com esses personagens e esse mundo”, diz Ehasz. “É uma situação realmente agradável. Muitas contribuições estão vindo de cantos inesperados”.

Para ambos, precisou apenas de uma simples interação sobre mundos como os de Robotech e de Star Wars para selar o desejo de serem independentes. “Nós dois realmente queríamos ir e fazer algo que tivéssemos 100% de controle sobre e entregá-lo sob essa promessa de tentar fazer algo mágico,” diz Richmond. “Então se formos estragar tudo, seria inteiramente nossa culpa”.

Foi o tio de Richmond, que aconteceu de possuir uma livraria na década de 80, que ajudou a atraí-lo para mundos de fantasia e ficção científica cheios de lendas. Depois que o tempo e o decrescente número de vendas forçaram a loja a fechar, o tio em questão entregou a ele uma caixa cheia de clássicos da ficção científica, incluindo Ender’s Game e Lovecraft, junto com uma boa cota de literatura objetivamente porca e porosa*. Apesar das qualidades misturadas dos livros, Richmond devorou cada um, se apaixonando por cada universo alternativo, e explorando cada um de qualquer jeito que pudesse.

Para Richmond e Ehasz, essa fome – saber todos os pequenos detalhes de um mundo, sua história antiga, suas metodologias mágicas – cresce da relação entre o artista e seus fãs.

“O que eu tiro de Futurama e Avatar: a Lenda de Aang é que a audiência é bem esperta,” diz Ehasz. “Todos os detalhes, nuanças, coisas que você edifica na história e personagens? Podem existir pessoas que não apreciem isso, mas existem tantos por aí que apreciam e estão prestando atenção. Nós estamos gastando tanto tempo nessa série e nesse jogo nos certificando da harmonia desses detalhes, de que haja coisas para descobrir, e que as coisas abaixo da superfície valham a pena porque existe uma tonelada de pessoas que querem e merecem isso. Nós precisamos fazer algo bom o bastante para eles.”

Uma parte majoritária disso também vem de fãs conseguirem achar uma parte de si nos personagens pelos quais se apaixonam, disse Ehasz. Apesar da natureza inerentemente fora deste mundo de séries como Avatar: a Lenda de Aang, Uncharted ou Futurama, tem um traço comum da humanidade que permite a conexão de entregadores interestelares, espadachins intrépidos e antigos místicos com os telespectadores.

Para Ehasz, o impacto de um personagem relativamente menos importante de Avatar: a Lenda de Aang ficou com ele até hoje, praticamente uma década depois. Criado em um lar restrito e emocionalmente negligente, a natureza externamente sombria de Mai fez com que ela parecesse fria até que sua perseverança se externou como vantajosa em forma de um conflito com a traiçoeira Princesa Azula. “Em algum ponto eu recebi uma mensagem de uma jovem que disse se identificar com a Mai como uma personagem sombria e depressiva, e disse que nas várias coisas que ela assistiu os personagens sombrios sempre eram ridicularizados ou perdiam no final,” diz Ehasz. “Ela gostou da Mai ter tido um final feliz sem ter que mudar sua identidade. Ela pôde ser daquele jeito e achar a felicidade sem mudar quem ela era. Essas experiências são incríveis, quando alguém separa um minuto para te contar que algo afetou elas, você se sente tão sortudo por ter sido capaz de ter um impacto positivo em alguém.”

Mesmo com a natureza decididamente ordinária de uma franquia como Uncharted, com o humor sereno e sorte ridicula de Nathan Drake, Richmond desenvolveu uma apreciação pelas distâncias que fãs iriam para expressar sua adoração. Em um evento de imprensa na Polônia para um dos volumes de Uncharted, um jovem abriu caminho lá dentro para falar com os desenvolvedores.

“Ele estava tão animado para falar conosco sobre Uncharted,” diz Richmond. “A experiência dele com isso foi tipo ‘isso é o que eu jogo depois da escola, isso me dá um meio de escape e eu quero ser um arqueólogo’ e essas coisas. Por alguma razão, essa ocasião sempre me faz pensar ‘ai meu Deus, nós providenciamos essa experiência para esse garoto, e ele foi tão grato, nós podemos manter isso assim, por favor?’ Como nós podemos atender às esperanças e sonhos dessa criança para o que é essa série?”

Enquanto o time continua crescendo, como necessário, ele atualmente inclui outros antigos empregados da Naughty Dog, Nickelodeon e Riot Games (e um diretor de Avatar: a Lenda de Aang).

No universo televisivo, pode ter sido um golpe de sorte que transformou Avatar: a Lenda de Aang em algo além de apenas um programa. A Nickelodeon ofereceu suporte para o time tomar inúmeros riscos criativos, permitindo com que escritores e artistas tornassem isso em algo que ecoasse mais alto, Ehasz diz. Como nas séries mais originais, precisou de um pouco de convencimento para expandir isso além dos limites, de um programa semanal para brinquedos, histórias em quadrinhos e, sim, jogos.

“Acho que no final a maioria concorda que algumas dessas coisas ressonaram com sucesso, enquanto algumas não, mas vindo de onde eu estava na série parece que nós cativamos a atenção da audiência, agora como vamos nos certificar de que todo o resto que estamos trazendo é digno do tempo dela?” diz Ehasz, adicionando que esse tipo de questionamento é exatamente no que a equipe da Wonderstorm se fixa enquanto desenvolve.

No final das contas, ambos Ehasz e Richmond esperam que os novos mundos edificados por eles na Wonderstorm vai não apenas entreter os jogadores como também convida-los a criarem as próprias histórias. Para eles, cinco horas gastas assistindo Star Wars ou um dia lendo Ender’s Game pode ser traduzido em centenas de horas brincando de faz-de-conta em parquinhos e posicionando figuras de ação, mesmo que os resultados sejam um pouco incomuns.

“Pra mim, de qualquer forma, enquanto você brincava com coisas de Star Wars, quantas vezes Luke, o Imperador e um ewok tiveram uma louca aventura, certo?” diz Richmond. “É diferente de chegar e falar ‘aqui está a história de Luke Skywalker,’ e ambas coisas são apropriadas, e eu acho que isso é uma boa parte do que captamos aqui.”

Tradução do artigo original por Bells Galvêas.

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Eduardo Guerra

22 anos, estudante universitário de Design Gráfico e Mídias de Entretenimento. Nascido em Campinas, SP, atualmente mora na cidade de Gold Coast, na Austrália. Adora livros, música e cinema. No site, atua como administrador geral, atualizando o portal sempre que possível e organizando as áreas específicas para a satisfação dos membros.

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